REZEMOS PARA QUE VISITA PASTORAL A VILAR DO PARAÍSO, DE 27 DE OUTUBRO A O1 DE NOVEMBRO, FORTALECA A NOSSA FÉ E NOS TRAGA CAMINHOS DE RENOVAÇÃO CRISTÃ PROPOSTA PELO SÍNODO DIOCESANO: "FORMAR-REFORMAR-TRANSFORMAR" E UNA EM ORAÇÃO DE ESPERANÇA E ALEGRIA A NOSSA COMUNIDADE PARA QUE DÊ FRUTO EM ABUNDÂNCIA
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terça-feira, 22 de julho de 2025

DOMINGO XVI DO TEMPO COMUM

«Marta recebeu Jesus em sua casa.
Maria escolheu a melhor parte» Lc 10, 38-42
"Jesus e Maria não seguem as convenções e há tanto tipo de convenções (...) Mas não devemos deixar que a nossa vida seja aprisionada por isso (...) Quando deixamos que o evangelho entre no nosso coração é um outro critério a guiar-nos não as convenções. (...) Sim, até certo ponto temos que representar um papel que nos foi atribuído, mas dentro desse papel tu podes ser muito criativo e muita criativa podes fazer tanta coisa que não está lá escrito no guião da peça. (...) Em quê que Jesus é novo? Jesus é novo  porque se senta em conversação com a mulher ! Ainda hoje, em muitas culturas, o homem e a mulher não podem falar em público.
 (...) Portanto Jesus é um homem livre aqui, novo! 
Várias vezes nos evangelhos o vemos a conversar com mulheres em lugares públicos. O encontro de Jesus com a samaritana, aquela a mulher prostituta que chorando lhe banha os pés e os enxuga com os cabelos, a mulher adúltera de quem Jesus diz: ninguém te condenou também eu não te condeno vai em paz doravante não voltes a pecar. 
Jesus, contrariamente ao que eram as regras do seu tempo, teve para com as mulheres uma atitude completamente nova. São Paulo depois vai dizer: "já não há judeu nem grego, já não há escravo nem oprimido, já não há homem nem mulher porque todos somos um só em Cristo Jesus." E nós recebemos isso de Jesus. (...) Jesus teve com as mulheres esta atitude livre e libertadora numa culta onde há mulheres era reservado um lugar muito secundário (...) 
E Maria, em quê que reside a sua novidade? Reside no facto de que em vez de ficar lá atrás na tenda como estava Sara ou como estava Marta na cozinha, se pôs estava na sala de estar onde estão os hóspedes. E quem são os hóspedes? Os homens!
Ali estava ela sentada aos pés de Jesus. (...)  Sentar aos pés significa ser discípulo de. Então o que faz esta Maria? Senta-se aos pés de Jesus como uma discípula!  No mundo antigo só os homens podiam ser discípulos, só os homens é que iam à escola. Maria quebra as convenções senta-se aos pés de Jesus e isto foi uma novidade do cristianismo. (...) As mulheres são discípulas de igual dignidade como os homens. (...) Seguir Jesus é para todos, homens e mulheres e há muitas formas de ser discípulo. (...) 
O que caracteriza o discípulo? "Sentado aos pés de Jesus ouvia a sua Palavra!" A atitude fundamental do discípulo é ouvir a Palavra de Jesus, a escuta a interiorização da Palavra do Senhor."
Da homilia do Pe. Luís Castro 
Capela de São Caetano

terça-feira, 8 de julho de 2025

A ALEGRIA TRAZ A PAZ

 

(...) Só transmite a paz quem tem paz no seu coração, na sua vida, na sua família.
Se não tiverdes paz nas vossas casas é impossível transmitir a paz.
A paz é a cura das nossas feridas, das nossas mágoas (…)
Não podemos fugir dos problemas, ficamos perturbados, mas não podemos ficar na tristeza (…) A missa deve trazer-nos alegria deve mudar o ânimo, vem triste deve sair alegre e viver a mudança no dia a dia para ser feliz.

Vamos pedir por intercessão de São Caetano que nos ajude a ser homens e mulheres que transmitem a paz em qualquer lugar onde estivermos. É difícil? Sim, é difícil! Mas vale a pena transmitir a paz aos outros em vez de tristeza.

Da homilia do Padre Abdul
Domingo XIV do Tempo Comum
Capela de São Caetano

sexta-feira, 14 de abril de 2023

QUEM MATOU JESUS?

Eis a pergunta que foi colocada na breve mas belíssima homília do Rev. Pe. Libério de Sousa Pereira, missionário da Boa Nova, em dia de Páscoa, na Capela de S. Caetano. E, com ela, deu à assembleia uma catequese sobre os 7 Pecados Capitais, hoje tão pouco falados, mas que foram e continuam a ser os causadores da morte de Jesus, no sofrimento infligido aos mais frágeis, às crianças e ás vítimas das hediondas guerras e violência que assolam o mundo inteiro. 
Que as palavras do Rev. Pe. Libério permaneçam no coração de quem as ouviu, levem a uma reflexão profunda, e delas se  faça mensagem neste tempo de ressurreição. 🙏

segunda-feira, 10 de abril de 2023

DOMINGO DE PÁSCOA - SANTA MISSA

 HOMILIA DO PAPA FRANCISCO

Hoje a Igreja repete, canta, clama: «Jesus ressuscitou!». Mas como? Pedro, João, as mulheres foram ao Sepulcro e viram-no vazio, Ele já não estava lá. Voltaram com o coração apertado pela tristeza, a tristeza de uma derrota: o Mestre, o seu Mestre, que amavam muito tinha sido executado, morreu. E da morte não se volta. Esta é a derrota, este é o caminho da derrota, a via para o sepulcro. Mas o Anjo disse-lhes: «Não está aqui, ressuscitou».

Foi o primeiro anúncio: «Ressuscitou». E depois a confusão, o coração apertado, as aparições. Mas os discípulos permanecem fechados o dia inteiro no Cenáculo, porque tinham medo que acontecesse a eles o mesmo que aconteceu a Jesus. E a Igreja não cessa de dizer às nossas derrotas, aos nossos corações fechados e temerosos: «Parem, o Senhor ressuscitou». Mas se o Senhor ressuscitou, como existem essas situações? Tantas desgraças, doenças, tráfico de pessoas, guerras, destruições, mutilações, vinganças, ódio? Mas onde está o Senhor?

Ontem telefonei a um jovem que sofre de uma doença grave, um rapaz culto, engenheiro, e falando, para dar um sinal de fé, disse-lhe: «Não há explicações para o que te acontece. Olha para Jesus na Cruz, Deus fez isto com o seu Filho, e não há outra explicação». E ele respondeu-me: «Sim, mas Ele perguntou ao Filho, o qual disse sim. A mim não perguntou se eu queria». Isto comove-nos, não pergunta a nenhum de nós: «Mas estás contente com o que acontece no mundo? Estás disposto a carregar esta cruz?». E a cruz vai em frente, e a fé em Jesus diminui. Hoje a Igreja continua a dizer: «Para, Jesus ressuscitou». Isto não é imaginação, a Ressurreição de Cristo não é uma festa com muitas flores. É bonito, mas não é só isto, é mais: é o mistério da pedra descartada que acaba por ser o fundamento da nossa existência. Cristo ressuscitou, eis o que significa.

Nesta cultura do descartável na qual o que não serve é usado e deitado fora, o que não serve é descartado, aquela pedra — Jesus — foi descartada e é fonte de vida. E também nós, pedrinhas pelo chão, nesta terra de dor, de tragédias, com a fé no Cristo Ressuscitado ganhamos um sentido no meio de tanta calamidade. O sentido de olhar para além, o sentido de dizer: «Olha não há muros mas horizontes, há vida, alegria, a cruz com esta ambivalência. Olha para a frente, não te feches. Tu pedrinha, tens um sentido na vida porque és uma pedrinha junto daquela pedra, a pedra que a malvadez do pecado descartou». Que nos diz a Igreja hoje diante de tantas tragédias? Isto, simplesmente. A pedra descartada não resulta deveras descartada. As pedrinhas que acreditam e se apegam àquela pedra não são descartadas, ganham um sentido e com este sentimento a Igreja repete do fundo do coração: «Cristo ressuscitou».

Pensemos um pouco, cada um pense, nos problemas diários, nas doenças que vivemos ou que um dos nossos parentes sofre; pensemos nas guerras, nas tragédias humanas e, simplesmente, com voz humilde, sem flores, sozinhos, diante de Deus, diante de nós, digamos: «Não sei como vai isto, mas estou certo de que Cristo ressuscitou e aposto nisto». Irmãos e irmãs, era o que desejava dizer-vos. Voltai para casa hoje, repetindo no coração: «Cristo ressuscitou».

https://www.vatican.va/content/francesco/pt/homilies/2017/documents/papa-francesco_20170416_omelia-pasqua.html 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

IV DOMINGO DO TEMPO COMUM

Sf 2,3;3,12-13
Sl 145(146)
1Cor 1,26-31
Mt 5, 1-12a

FAZER O HOMEM FELIZ É O PROJETO DE JESUS CRISTO

As Bem-Aventuranças são paradoxais, um verdadeiro contrassenso que rasga o caminho da felicidade. Elas traçam o itinerário de instauração do reino de Deus através de oito atitudes vitais, formando um círculo perfeito, que se inaugura com a felicidade dos pobres em espírito – a primeira bem-aventurança – e reencontra o ponto de partida na perseguição gerada pelo seguimento de Jesus – a oitava. Entre estas duas, que têm o Reino como fruto, residem todas as demais.

O reino dos Céus está ao alcance daqueles que vivem ao estilo de Jesus, em pobreza de opinião, de vontade, de quereres e apeteceres, arriscando o desprezo e desvalorização de outros. Não há verdadeira liberdade para Deus quando estamos cheios de nós. Nunca encontraremos a alegria enquanto desperdiçarmos energias nos nossos inegociáveis. Pois cada um dos nossos inegociáveis força-nos a sacrificar o essencial no altar do supérfluo. Cada um dos nossos inegociáveis torna-se senhor de nós quando há um só Senhor: o Deus de bondade.

Sem grande consciência, enchemos as nossas rotinas de inegociáveis. Eles podem ser o ginásio, uma série, ou um qualquer outro mimo aparentemente inócuo. Mas estas restrições, estes impedimentos quando bloqueiam a alma para a liberdade do Evangelho, fecham-nos ao Espírito.

Naturalmente, todos nós precisamos dos nossos tempos de descanso. Mas o único inegociável, o único imprescindível é o Senhor. Sempre que estabelecermos limites ou preferências, temos de nos recordar do sentido da nossa vida, que não é a autopreservação nem a rigidez de alma, mas sim o Reino.

Para viver o Reino, há que não recear as dificuldades nem temer as resistências. Há que seguir o caminho do Mestre, em grande pobreza interior quanto à própria vontade. Foi este o estilo de Jesus e não há outra forma. Só assim faremos das lagrimas, da fome e da humildade, alegria. Só assim receberemos da mão do Senhor o cumprimento das promessas que nos fez. Só assim seremos sinal de misericórdia, de paz e de reconciliação entre a humanidade. Só assim seremos Reino, felizes e bem-aventurados.

Pe. Carlos Correia
Imagem: Internet

sábado, 19 de março de 2022

III DOMINGO DA QUARESMA (Ano C) - Dia da Cáritas

Ex 3,1-8a.13-15)
Sl 102(103)
1Cor 10, 1-6.10-12 
Lc 13,1-9

CONVERSÃO: VOLTAR A AMAR A DEUS E AO PRÓXIMO

Os três últimos domingos da Quaresma (III, IV e V) têm como tema principal a conversão e a renovação da vida de quem se converte. É interessante constatar como na renovação da Quaresma se concede o primeiro lugar à conversão. O Evangelho do 3º domingo da Quaresma é muito significativo a este respeito.

Ao ser confrontado com a morte de galileus por ordem de Pilatos, galileus que estariam no Templo oferecendo sacrifícios, Jesus tenta debelar algo que deverá ter sido insinuado, mas que não está expresso no Evangelho: as suas mortes seriam um castigo divino, com origem na sua impureza.
Contudo, Jesus resiste a esta instituição, e através do recorrente apelo à conversão daqueles que o escutam, Ele aponta-nos o verdadeiro responsável por aquelas mortes: Pilatos. É pelo pecado deste, e não das vítimas, que esta atrocidade tem lugar.

Reconheçamos o poder desfigurado da Criação que o pecado tem. E assumamos a nossa responsabilidade ao sermos cúmplices do pecado. Não imputemos a Deus aquilo que se resume a consequências das nossas más escolhas.

Jesus recorre à Parábola da Figueira para nos mostrar quem é o nosso Deus. O nosso Deus não é um amo castigador. O nosso Deus é como o vinhateiro da Parábola, que remexe e aduba a terra, confiante de que a figueira irá dar fruto. O nosso Deus dá-nos vida, ano após ano, para virmos a frutificar. O nosso Deus atua discreta e silenciosamente, acompanhando-nos com a sua graça, num contínuo e incessante apelo à conversão.

Escutemos o apelo à conversão na voz do paciente vinhateiro, que ano após ano aduba a terra na esperança que dê fruto. E vivamos este domingo, e esta semana que agora principia, ao ritmo do refrão do salmo que hoje cantamos: “o Senhor é clemente e cheio de compaixão”.

Resta-nos ainda perguntar: Que tipos de frutos estamos/ estou a produzir? Esta figueira que Jesus fala é cada um de nós, nossa família, a Igreja e a sociedade. Que frutos de fraternidade nós produzimos? A figueira estéril que Jesus fala não está longe de nós. Quem sabe se não está dentro de nós, na nossa família, na nossa comunidade? Será que sou eu esta figueira estéril ou infértil?

Pe. Carlos Correia

domingo, 6 de março de 2022

I DOMINGO DA QUARESMA (Ano C)

Dt 26,4-10
Sl 90(91)
Rm 10,8-13
Lc 4,1-13

COM JESUS VENCEREMOS AS TENTAÇÕES

Jesus é levado ao deserto pelo Espírito. Aí passa quarenta dias em oração e jejum. Não imaginemos um ser fantástico, imune à fadiga, à fome e a estados de alma. Olhemos para um Jesus maltratado pelos extremos de uma vida no deserto, um Jesus que padece um calor abrasivo durante o dia, um frio que queima durante a noite e uma fome que continuamente tolda o juízo.

O Tentador, arguto como é, esperou o momento de maior fragilidade, simbolicamente representado pelo número quarenta, para desviar Jesus do Pai, começando pela satisfação da necessidade mais premente – alimento – e passando aos desejos mais profundos daquele: que todos conheçam e reconheçam o Deus de Amor, que vem à sua procura. Citando a Sagrada Escritura, Jesus derrota Satanás. Mas estas palavras não brotam de uma mera sabedoria judaica, como quem cita autores, mas de um coração que fez da Escritura alimento na necessidade.

As respostas de Cristo são forjadas pelo combate espiritual. Cristo recusa todo o atalho na vida, ignorando a satisfação da necessidade imediata, rejeitando o domínio sobre todas as nações se este se funda na adoração da mentira, e declinando o convite a seduzir a Humanidade pela demonstração do seu poder. Alimentando-se da Palavra, deixando que esta se tatuasse no seu corpo, negando o caminho fácil mas tortuoso da complacência com o mal, Cristo arrisca o fracasso, mas mantém-se fiel ao bem, à verdade e à justiça.

Também nós somos tentados com a autossuficiência, com o poder e com o desejo de sermos admirados por outros. A luta de Jesus com as tentações é a nossa luta, e devemos invocar o Senhor na adversidade, reconhecendo que, ao optar pelos caminhos corrompidos pela mentira e pelo mal, nos tornamos reféns do pecado. A vitória não nos pertencerá, nem será louvor de Deus, mas adoração do mal.

Comecemos esta caminhada quaresmal com Jesus, entrando nos desertos das nossas vidas. Inauguremos a Quaresma com inteireza de ser, com um coração que crê e lábios que professam o Deus que Cristo nos revela, com um coração que ama o bem e rejeita a facilidade, com lábios que abraçam a verdade e abominam o engano.

Pe. Carlos Correia

sábado, 26 de fevereiro de 2022

VIII DOMINGO DO TEMPO COMUM (Ano C)

Eclo 27,5-8
Sl 91(92)
1Cor 15,54-58
Lc 6,39-45

SOMOS CHAMADOS A RENOVAR O NOSSO INTERIOR

É preciso provar o fruto para saber se uma árvore é boa. As aparências, não raras vezes, enganam-nos. Quantas das nossas “boas ações”, motivadas por boas intenções, não nos provocaram amargos de boca? Quantas vezes não fomos cegos à nossa própria realidade no desejo de motivar outros a levar uma vida “exemplar”?

Na sabedoria do Antigo Testamento, o “fruto” é uma metáfora clássica para a ação humana: com os nossos gestos e feitos, revelamos a nossa interioridade. Como nos recorda o Evangelho de hoje, “a boca fala do que transborda do coração”. E isto não é sentimentalismo, pois para a cultura judaica de então, o coração não é o lugar do mero sentimento, mas o lugar da consciência, da decisão, da reflexão.

O coração é lugar de encontro entre o pensamento – que estaria na cabeça – e as entranhas, onde dominam os sentimentos. É aí que pensamentos e sentimentos devem ser ponderados, medidos, vistos à luz da vida de Cristo. E, uma vez postos à prova e considerados conformes à nossa fé, então sim devem levar-nos à ação.

Cristo é a lente através da qual vemos o mundo. E para evitar cegueiras e autoenganos, o Evangelho de hoje desafia-nos a assumir duas atitudes: ter uma visão espiritual sobre o que acontece e o que nos acontece, isto é, identificar a graça, o convite que Deus nos faz em cada situação; testar se, entre o que vai no nosso coração e o que é expresso pela nossa boca, há coerência, pois poderemos estar cegos aos nossos próprios limites, enquanto pretendemos ensinar outros a viver.

Não nos fiquemos por uma vida de fé que se resuma a uma moral de boas ações, imposta a outros ou autoimposta, tendo como único juiz as nossas próprias convicções. Ofereçamos os nossos pensamentos e sentimentos a Cristo, deixemos que Ele os peneire e os prove no seu amor. Examinemos o que entendemos como bom à luz da vida de Cristo e tenhamos uma vida que se alimenta da graça da presença de Deus em nós.

O mestre do outro nunca serão as nossas palavras, mas as nossas vidas. O nosso testemunho, com toda a fragilidade e vulnerabilidade de cada um dos nossos gestos, é o grande livro e a única palavra que podemos oferecer aos outros para que se convertam, se apaixonem e adiram a Cristo.

Pe. Carlos Correia 

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

IV DOMINGO DO TEMPO COMUM (Ano C)

Jer 1,4-5.17-19
Sl 70(71)
1Cor 12,31-13,13
Lc 4,21-30

SOMOS PROFETAS DE DEUS NO NOSSO HOJE

O texto do evangelho deste domingo ainda é a continuação do evangelho do domingo da semana passada.

Quando termina de falar na sinagoga de Nazaré, é unânime o clamor em favor de Jesus. Contudo, o Evangelho de hoje culmina na sua expulsão da cidade. Como puderam os ventos mudar tão facilmente? A popularidade, quer ontem quer entre os nossos contemporâneos, não é difícil de atingir: basta repetir o que é agradável aos nossos interlocutores. Mas como ouvimos Deus dizer a Jeremias na primeira leitura, ao arriscarmos ser profetas, ao arriscarmos expor verdades incómodas, encontraremos oposição. E não devemos vacilar.

Ser câmara de repetição das opiniões que agradam pode garantir-nos muita coisa, mas nunca paz de espírito, pois esse caminho pode levar-nos a faltar à verdade e à justiça. A caridade de que São Paulo nos fala na 2ª Leitura, a que não se irrita nem guarda ressentimento, é também uma caridade metediça. O amor, esse desejar que o outro seja a melhor versão de si mesmo, leva-nos a ter conversas em que somos confrontados com as nossas fragilidades e em que temos de confrontar outros, em que temos de intervir.

Jesus não se contenta com os muitos aplausos. Ele olha à sua volta e reconhece o entusiasmo reinante que tinha começado com a sua presença entre eles, passou para o facto de que este Jesus era filho de José, um dos seus e, portanto, Jesus é um deles. E é com destreza e rapidez que Jesus os faz sair desta espécie de autocomprazimento, apontando singelamente o critério de Deus: mais que buscar “os seus”, Deus vai ao encontro daqueles que têm um coração sincero. Por isso enviou Elias até à viúva de Sarepta e Eliseu a curar o sírio Naamã, dois episódios em que Deus privilegia estrangeiros. Por quebrar a cadeia do autocontentamento, Jesus é expulso. Diante da rejeição e estado de excitação da multidão, que faz Jesus? Passa no meio deles e segue caminho.

Tenhamos caridade nas nossas palavras, mas aquela caridade profunda que não sacrifica nem a verdade, nem a justiça. Arrisquemos ser expulsos das nossas “cidades”, confiantes em Deus e fiando-nos pouco nos aplausos.

Pe. Carlos Correia

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

VIVER CONFORME A PALAVRA E A VONTADE DE DEUS

Neste Domingo da Palavra de Deus – que é também o 6º dia da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos – devemos centrar a nossa atenção no peso que a Escritura tem nas nossas vidas. Somos capazes de ler a nossa vida à luz das Escrituras? No episódio narrado hoje por São Lucas, em que Jesus lê a passagem de Isaías, é-nos mostrado como a Palavra ganhava vida em Jesus, como Ele se identificava com ela e se reconhecia nela. A Palavra de Deus é-nos dirigida para apontar rumo e iluminar o quotidiano. Somos capazes de nos encontrar nas leituras que ouvimos, domingo após domingo?

Pela ação do Espírito, a Palavra deve ecoar de forma distinta em cada um de nós. E como São Paulo nos indica, esse eco deve levar-nos à ação. Mas isto pede-nos que, mais do que somente ler ou escutar, nós nos deixemos afetar pela Palavra; pede-nos que nos disponibilizemos para que a Palavra ganhe corpo em nós, para que ela fecunde a nossa imaginação.

Deixemo-nos contagiar pela vida e alegria relatadas hoje na primeira leitura, no Livro de Neemias. Comecemos esta semana dispostos a voltar para as nossas casas prontas para fazer uma festa, falando entre nós sobre o impacto que as leituras deste dia têm em nós, e estejamos atentos aos que nada têm, para partilhar com eles a nossa alegria, seja através da comida ou de bens que lhes façam falta, seja através de uma presença amorosa. Não deixemos que a Palavra de Deus passe em nós sem surtir efeito. Optemos por ser terra fértil para a Palavra e assim dar fruto.

Pe. Carlos Correia

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

III DOMINGO DO ADEVENTO (Ano C)


Sf 3,14-18a
Sl: Is 12,2-16
Fl 4,4-7
Lc 3,10-18

EVANGELHO: ANÚNCIO DA ALEGRIA!...

Neste terceiro domingo do Advento somos convidados a redescobrir a alegria da fé, a alegria de quem faz a experiência de que Deus está presente, de que Ele habita este mundo em que vivemos. É desta alegria que as leituras que antecedem o Evangelho estão cheias, ganhando um sabor particular em Paulo, ao apelar-nos, na segunda leitura, a que esta alegria se transforme em testemunho da bondade de Deus para com todos. Este ponto particular é algo que o Evangelho de hoje sublinha na perfeição: a nossa alegria com a presença de Deus no meio de nós implica ação, implica uma mudança de vida.

A multidão de pessoas que acorriam a João Batista no deserto, conscientes da necessária mudança de vida que vem com fé no Deus-connosco, apresenta-lhe a questão que também nós, tantas vezes, nos colocamos e colocamos a Deus: “reconhecendo a bondade de Deus, reconhecendo que Deus está comigo e com os meus irmãos, alegrando-me com isso, de que forma devo viver?” – João Batista é claro na sua resposta: apela a que a multidão partilhe os seus bens com quem nada tem, incentiva os cobradores de impostos a não enriquecerem à custa dos outros e , aos soldados, pede-lhes que não abusem do seu poder. Essencialmente, João Batista diz-lhe que pautem as suas obras pela justiça e pela solidariedade, sendo generoso e honestos no seu serviço aos outros.

Num convite à alegria, tão pertinente hoje como então, podemos atentar nas palavras que brotam da boca de João Batista e escorrem da pena de Paulo, e examinar os nossos dias e as nossas acções. Então, desde a experiência da vida vivida, podemos traçar um plano de santidade, perguntando-nos: “na partilha daquilo que tenho, na forma como sirvo, em casa e no trabalho, de que forma sou testemunha de um Deus que é bom, que se faz presente e que está connosco?”

Pe. Carlos Correia

sábado, 20 de novembro de 2021

NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO (Ano B)

 
Dia Mundial da Juventude

Dn 7,13-14
Sl 92(93)
Ap 1,5-8
Jo 18,33b-37


CRISTO, REI DO UNIVERSO

A celebração de Cristo Rei, além de ser um reconhecimento da realeza de Cristo, é uma exortação a entrar na dinâmica do reino de Cristo, que “não é deste mundo” (Jo 18,36), mas tem origem em Deus de quem procede todo o poder. Na Páscoa de Cristo, Deus transfere-nos do domínio do pecado para o reino de Cristo, um “reino de verdade e de vida, de santidade e de graça, de justiça, de amor e de paz” (Prefácio). A contemplação da realeza de Jesus a partir de um passo da sua Paixão faz-nos perceber o seu estilo de reinar, sempre ao serviço da vontade do Pai que consiste na salvação da Humanidade por quem Ele dá a vida.

A reforma do Concílio Vaticano II colocou, na conclusão do ano litúrgico, esta festa que foi instituída em 1925 pelo Papa Pio XI. É como a chave de oiro do itinerário de celebrações do povo cristão, centrando tudo em Cristo, Senhor do tempo e da história, Rei do universo e dos corações dos fiéis.

Daniel escreve esta profecia nos tempos da perseguição do ímpio rei Antíoco IV, século e meio antes de Cristo. Assim encorajava a fé do povo de Israel, que aguardava a vinda do Messias Salvador. A realeza de Cristo “é eterna, não passará jamais”. Pode ser ofendido e até crucificado, mas nunca eliminado, porque finalmente vence a ressurreição e a vida divina.

São João, nesta visão simbólica do Apocalipse, apresenta-nos Cristo como “a Testemunha fiel, o Primogénito dos mortos, o Príncipe dos reis da terra, aquele que nos ama e pelo seu sangue nos liberta do pecado e faz de nós um reino de sacerdotes”. A realeza de Cristo não nos constitui como seus soldados, escravos ou súbditos, mas sim como seus sacerdotes e amigos. É esta dignidade admirável que o Rei do universo nos concede. Sendo fiéis a Cristo não ficamos subjugados pelo seu poder, mas somos promovidos à dignidade sacerdotal. Como nos tempos do imperador Domiciano, quando João escrevia o Apocalipse a animar os cristãos perseguidos, nos dias de hoje, em muitos lugares da terra, a Igreja também é perseguida. Rezemos para ter a coragem de acreditar que vale a pena assumir a cruz das contrariedades e provações, pois nos conduz à vitória da ressurreição com Cristo, Rei e Senhor do Universo.

No pretório de Pilatos, Cristo assume a sua realeza. Mas é um rei original, sem exército e sem escravos. Um reinado que não é deste mundo, pois a sua grandeza está em servir e em dar a sua vida para que todos tenham vida e vida abundante. Um rei que não veio para ser servido, mas para servir. Celebrar a realeza de Cristo é imitá-lo como Ele hoje se nos apresenta no trono da Eucaristia, dando-se em comunhão para a nossa vida e salvação. Procuro imitar a realeza de Cristo eucarístico, dando-me em comunhão a quem precisa de mim?

Que a Virgem Maria nos ajude a acolher Jesus como Rei e Senhor da nossa vida e a difundir o seu reino, dando testemunho da verdade que é o amor.

Pe. Carlos Correia

segunda-feira, 19 de abril de 2021

RECONHECER E TESTEMUNHAR O CRISTO RESSUSCITADO

Não foi fácil para os discípulos aceitar a realidade do mistério da fé pascal, perceber a novidade da presença de Jesus Ressuscitado. É por isso que Ele Se serve de sinais para mostrar a sua identidade, nomeadamente dos sinais da paixão e do sinal da refeição partilhada. Os evangelistas colhem esses sinais e transmitem-nos, para que, através da leitura do Evangelho, todos os cristãos possam também fazer a mesma experiência dos discípulos com Jesus.

Lucas apresenta-nos uma aparição de Cristo ressuscitado no mesmo dia de Páscoa. Aparece, como é habitual, a transmitir serenidade e confiança: “A paz esteja convosco”. Não são também assim as nossas comuns experiências de encontrar o Senhor, na simplicidade da nossa oração e especialmente nos encontros com Cristo eucarístico? Jesus aparece não apenas para dar o conforto da sua presença, mas para nos enviar em missão. Cada um de nós tem de ser testemunha de Cristo ressuscitado, transmitindo a paz, amor e confiança. “Ser testemunhas da ressurreição” significa proclamar não apenas por palavras, mas por gestos concretos o nosso compromisso com a vida plena de todos. Palavras e documentos já temos muitos. Falta ação concreta e efetiva. Falta testemunho de vida. A Igreja não necessita de doutores e sim de testemunhas, dizia o Papa Paulo VI. Para anunciar Jesus Cristo Ressuscitado não se requerem qualidades especificas, mas uma fidelidade constante.

Estamos a iniciar a Semana de Oração pelas Vocações. Abramo-nos à graça de termos vocações de qualidade que transmitam, na Igreja e no mundo, a consolação de termos Cristo vivo no meio de nós.

Pe. Carlos Correia

sábado, 10 de abril de 2021

II DOMINGO DA PÁSCOA/ Ano B

Act 4, 32-35
Sl 117(118)
1Jo 5,1-6
Jo 20,19-31

Domingo Da Divina Misericórdia

Neste Domingo encerramos a oitava da Páscoa. Ao mesmo tempo que este Segundo Domingo da Páscoa é conhecido como o Domingo da Divina Misericórdia, instituído pelo  saudoso Papa João Paulo II, por ocasião da canonização  da Irmã  Faustina Kowalska, (conhecida como Irmã da misericórdia do Coração de Jesus), em 30 de Abril de 2000. Recordamos que o Papa Francisco convocou toda a Igreja para a celebração de um “Ano Jubilar da Misericórdia” e nos pede para que todos nós sejamos “missionários da misericórdia”.

Os Atos dos Apóstolos falam de um testemunho original que os primeiros cristãos davam da ressurreição de Cristo. Não se tratava de discursos nem de aulas de catequese. Era o testemunho de unidade entre todos e de partilha de bens com os mais necessitados: “tinham um só coração e uma só alma; ninguém chamava seu ao que lhe pertencia... Não havia entre eles qualquer necessitado”. Ainda hoje a caridade, prática e solícita, tem um forte poder evangelizador. O cristão que ama de verdade está  a provar que Cristo ressuscitou e está vivo no meio de nós.

São João recorda-nos que a prova de que amamos a Deus está em cumprir a sua vontade, expressa nos seus mandamentos. As nossas palavras de profissão de fé valem na medida em que o nosso modo de viver o comprova. Recorda-nos também que os mandamentos de Deus não são pesados, pois são exigências de quem nos ama imensamente.

Na cena do Evangelho encontramos o apóstolo Tomé como patrono das nossas dúvidas e perplexidades. Sonhamos talvez com poder ver tudo claro no campo da fé, como se Deus e os mistérios da fé se pudessem provar cientificamente. Mas temos de ser humildes, pois como afirma Santo Agostinho: “Deus é sempre maior” e ultrapassa imensamente as limitações da nossa inteligência. Imitemos São Tomé na sua confissão de fé, com a audácia da humildade: “Meu Senhor e meu Deus!”.

Pe. Carlos Correia

Imagem: Internet

domingo, 28 de março de 2021

DOMINGO DE RAMOS NA PAIXÃO DO SENHOR - Ano B

Mc 11,1-10
Is 50,4-7
Sl 21(22)
Fl 2,6-11
Mc 14,1-15,47 (forma longa)
Mc 15, 1-39 (forma breve)

Domingo da Paixão

O Domingo de Ramos é o último domingo da Quaresma, que serve de pórtico para a Semana Santa. Do ponto de vista cristão, a Semana Santa, denominada antigamente por “Semana Maior” ou “Grande Semana”, é a semana que comemora o mistério pascal de Jesus Cristo (Paixão, Morte e Ressurreição). É o tempo de maior intensidade litúrgica de todo o ano. A Semana Santa é a Semana das semanas do ano. É o coração de toda a nossa fé. Em resumo, o Domingo de Ramos é a inauguração da Páscoa, ou passagem das trevas para a luz, da humilhação para a glória, do pecado para a graça e da morte para a vida. Nesta liturgia a ordem é a seguinte: primeiro, o triunfo (procissão, entrada solene) e logo a seguir vem o fracasso (paixão). É uma forma de a Igreja atualizar o mistério sem divisão, convidando-nos desde o princípio a seguir Jesus até à cruz para juntos participarmos na Sua ressurreição.

O relato da paixão e morte de Jesus tem em todos os Evangelhos um lugar de destaque. Sendo todos convergentes, Marcos tem o seu modo próprio de apresentar o máximo testemunho de amor que é dar a vida pelos seus amigos, que somos todos nós.

O silêncio de Jesus é sublinhado algumas vezes pelo segundo evangelista. Por vezes, só o silêncio pode exprimir o que desejamos. O quadro da realidade é tão rico que sobra a legenda das palavras. Marcos põe em especial evidência a solidão de Jesus: não aparece ninguém a defendê-lo ou a acompanhá-lo. Só depois de morrer, é posta a seguinte nota: “Estavam também ali umas mulheres a observar de longe”.

Em toda a narração da paixão e morte de Jesus não podemos ficar de fora, como espectadores, a ver como que cenas de um filme que não  faz parte da nossa vida. Tudo o que Jesus vive e sofre tem uma dedicatória de salvação que me diz respeito. É por teu amor, caríssimo irmão ou irmã do século XXI, que estou a ser traído por Judas, a ser julgado injustamente, a ser flagelado e coroado de espinhos, a levar a cruz até ao Calvário e aí a ser crucificado e a dar a vida. Por ti.

Pe. Carlos Correia

domingo, 25 de outubro de 2020

XXX DOMINGO DO TEMPO COMUM

Ex 22,20-26
Sl 17(18)
1Ts 1,5c-10
Mt 22,34-40

AMOR: O MAIOR MANDAMENTO

A Sagrada Escritura e as leituras de hoje de modo particular advertem para o perigo latente de esquecer o mandamento de amar o próximo, independentemente da sua condição. É o amor a Deus e ao próximo que constituem o centro nevrálgico do Cristianismo, e é nesta complementaridade entre as dimensões vertical e horizontal da existência que se define a coerência do ser cristão: no amor a Deus e no amor de Deus pela Humanidade. Jesus acrescenta que a verticalidade da existência está em vista da aplicação horizontal da relação com o Senhor: sem o amor aos outros, o amor a Deus é vazio e hipócrita. Como dirá São João mais tarde numa das suas cartas, “quem diz que ama a Deus, que não vê, mas não ama o seu irmão, que vê, é mentiroso”. Uma religião desligada dos problemas da Humanidade é desencarnada e desvirtua a sua natureza, bem como uma caridade desprovida da sua dimensão religiosa pode tornar-se mera filantropia. O cerne do amor ao próximo está no facto de que cada “próximo” que Deus torna irmão é, em primeiro lugar, sua imagem e semelhança. Ou seja, Deus identifica-Se com cada ser humano, e é na Humanidade e nas suas chagas que também hoje podemos “cuidar” e amar o próprio Deus. O amor a Deus deve inspirar-nos a sentir, a pensar, a agir e a amar como Deus o fez em Jesus Cristo. Vivendo isto, teremos a possibilidade de, como Paulo afirma, nos tornarmos dignos de ser imitados, porque testemunhos eloquentes do amor a Deus e ao próximo. 

Portanto, que cada um se pergunte: Será que posso afirmar que amo a Deus e ao próximo como a mim mesmo? De que maneira eu sei amar-me? Será que o amor governa a minha vida e a minha atitude para com o próximo? A quem ainda não amei o suficiente? A quem não quero amar? “Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento”. Este é o maior e o primeiro mandamento. O segundo, porém, é semelhante a este: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Toda a lei e os profetas dependem destes dois mandamentos”. É a resposta de Jesus para cada um de nós. Por amor a cada um de nós Jesus aceitou ser crucificado e morto. Se quisermos saber o valor de cada um de nós diante de Deus, basta olhar para Jesus Crucificado. (Texto elaborado tendo por base a reflexão dominical da “Liturgia Diária para a missa de cada dia” da Paulus).

Pe. Carlos Correia
Imagem: Internet 

sábado, 3 de outubro de 2020

XXVII DOMINGO DO TEMPO COMUM - Ano A

Is 5,1-7
Sl 79(80)
Fl 4,6-9
Mt 21,33-43

Um Deus que ama até ao fim e de nós espera bons frutos

O cântico “esponsal” do Livro de Isaías é um compêndio poético da história da salvação, que, porém, ao tempo do profeta, não tem um final feliz. O amor despendido por Deus não obteve o retorno esperado, em vez de uva, a vinha (Israel) produziu agraços, e o esposo sofre pela infidelidade da esposa. 

Sabemos que Deus sempre espera a conversão da sua amada, aguarda pacientemente que nós, seus filhos, não desaproveitemos o que Ele nos dá. Se há coisa que Deus repudia é a ingratidão, e esta é uma atitude tão presente na nossa sociedade e na nossa Igreja: o louvor e o reconhecimento daquilo que se recebe gratuitamente como dom do Alto não podem deixar de constituir um modo de viver normal na vida espiritual do cristão. 

Os servos enviados aos vinhateiros são os profetas e todos os mensageiros que Deus enviou ao povo para recordar a fidelidade à aliança, enquanto o filho do proprietário representa a figura de Jesus Cristo, o Filho de Deus rejeitado e assassinado por aqueles que se fizeram proprietários da vinha. 
Estas leituras, no seu conjunto, advertem para o perigo de a religião se tornar uma realidade monopolizada e manipulada pelos homens. A vinha usurpada pelos vinhateiros manifesta o controlo da graça (e da lei) que muitos reivindicam, impedindo o acesso de tantos e tantas às realidades da fé. A aliança passa a ser algo demasiado fechado e restrito, incapaz de produzir frutos, porque os homens a escravizaram e se esqueceram dos seus deveres para com Deus. 

Assim também a nossa vida se revelará estéril e infecunda se esquecer a necessidade de ser cuidada por Deus, se se fechar aos que Ele envia para nos dar a sua Palavra, se teimamos em fechar egoisticamente a vinha aos outros e a monopolizamos a nosso bel-prazer. A advertência final de Jesus é dura: “Ser-vos-á tirado o reino de Deus e dado a um povo que produza os seus frutos”. 

Ninguém se pode achar insubstituível na missão que Deus lhe confiou, nem ninguém se pode julgar dono dos dons de Deus ou dos espaços e realidades que são de todos. O nosso dever é zelar e cuidar, como bons guardiães de um tesouro, e não tender a pretensões de domínio e aprisionamento daquilo que é de Deus. 

(Texto elaborado tendo por base a reflexão dominical da “Liturgia Diária para a missa de cada dia”)
Pe. Carlos Correia

domingo, 13 de setembro de 2020

XXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM

Eclo 27,33-28,9
Sl 102(103)
Rm 14, 7-8
Mt 18, 21-35

PARA AMAR DE VERDADE TEMOS QUE APRENDER A PERDOAR SEMPRE

Na Bíblia há dois atributos básicos de Deus que são a justiça e a misericórdia. Na Bíblia Deus usa muito mais a misericórdia do que a justiça. Por isso, o Papa Bento XVI escreveu na sua encíclica: 

“O amor apaixonado de Deus pelo seu povo – pelo homem – é ao mesmo tempo um amor que perdoa. E é tão grande, que chega a virar Deus contra Si próprio, o seu amor contra a sua justiça. Nisto, o cristão vê já esboçar-se veladamente o mistério da Cruz: Deus ama tanto o homem que, tendo-Se feito Ele próprio homem, segue-o até à morte e, deste modo, reconcilia justiça e amor” (Deus Caritas Est, nº10). “Agora o amor já não é apenas um ‘mandamento’, mas é a resposta ao dom do amor com que Deus vem ao nosso encontro” (Idem nº1b).

O Evangelho deste Domingo é a segunda parte do Sermão sobre a Igreja (Discurso sobre a vida comunitária). Um dos maiores desafios para quem vive em comunidade ou em qualquer tipo de convivência, como também na comunidade de Mt, é o perdão. A sobrevivência de qualquer comunidade humana ou de qualquer convivência depende da capacidade que os seus membros têm de perdoar. Sem isto, não há comunidade ou convivência que possa subsistir por muito tempo. O perdão refaz as pontes, encurta as distâncias e desarma os espíritos. Quando a pessoa deixa de perdoar, ela se torna refém do próprio ódio ou rancor, e consequentemente perde a liberdade. O perdão é que possibilita a própria existência e a continuação da comunidade ou de uma convivência. Sem perdão não existe vida fraterna, vida conjugal, vida familiar ou vida comunitária. E de modo especial, devemos estar sempre conscientes de que a comunidade cristã (ou qualquer convivência humana) é constituída de homens que são ao mesmo tempo santos e pecadores e que só continuam vivos porque Deus renuncia à vingança. Se Deus respondesse às ofensas humanas, às nossas ofensas, eliminando o pecador, sem dúvida nenhuma, boa parte da humanidade desapareceria. Por que nós, seres humanos pecadores temos tanta dificuldade de perdoar, enquanto Deus que é santo tem a facilidade de perdoar? Será possível que consigamos chegar um pouco à santidade de Deus à qual todos somos chamados? (Cf. Mt 5,48). Isto nos leva a perguntar ou a questionar sobre a autenticidade da nossa vida espiritual. Os exercícios da vida espiritual: as orações, as leituras e as meditações sobre a Palavra de Deus, as missas celebradas ou participadas, têm transformado nossa convivência para uma convivência mais fraterna?

Quem perdoa e é perdoado hoje, sempre tem possibilidade de voltar a pecar amanhã, porque nossa fidelidade a Deus pode não ser definitiva. No entanto, sempre que nos convertemos e voltamos arrependidos, encontraremos um Pai bondoso e misericordioso para nos acolher e perdoar. A simples consciência da grandeza do perdão recebido de Deus devia ser o suficiente para motivar cada um de nós a perdoar.

Um homem escreveu: “Quereis ser felizes por um instante? Vingai-vos! Quereis ser felizes para sempre? Perdoai!” (Tertuliano). 

Será que somos felizes para sempre? Ou será que tem ainda alguém que ainda não perdoamos? Se for assim, escutemos novamente o que disse Jesus no Sermão da Montanha: “...se estiveres para trazer a tua oferta ao altar e ali te lembrares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa a tua oferta ali diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; e depois virás apresentar a tua oferta” (Mt 5,23-24). 

Deixemos hoje as seguintes interrogações que podem complementar a interrogação de Pedro no Evangelho: 

1). Eu em relação aos outros no perdão: 

Quantas vezes eu tenho que perdoar os outros? O que é que eu tenho que perdoar nos outros? Eu devo colocar um limite para o perdão que eu devo dar aos outros?

2). Os outros em relação a mim no perdão: 

Quantas vezes os outros me devem perdoar? O que eles me devem perdoar? Os outros devem colocar um limite para o perdão que eles me devem dar?

Pe. Carlos Correia

Foto: Internet

domingo, 6 de setembro de 2020

XXIII Domingo do Tempo Comum

Ez 33,7-9
Sl 94(95)
Rm 13,8-10
Mt 18, 15-20

CORRIGIR O IRMÃO PARA SALVÁ-LO

Santo Agostinho afirmava que em questões de fé devemos insistir oportuna e importunamente. A corresponsabilidade de uns pelos outros na salvação de todos faz com que a procura do bem do próximo seja uma prioridade na nossa vida. É verdade que ninguém pode evangelizar sem estar evangelizado, porém a conversão do meu “próximo” é igualmente uma tarefa que cabe a cada cristão e pela qual Deus pedirá contas, como afirma o profeta Ezequiel. Neste Domingo, a liturgia da Palavra coloca-nos diante desta condição fundamental: “A caridade é o pleno cumprimento da lei”. Nesta caridade postulada por São Paulo inclui-se o esforço pela salvação do outro. Por isso, no Evangelho O Senhor faz a apologia daquilo que em âmbito eclesial se denomina “correcção fraterna”. Como o próprio nome indica, correção fraterna significa a tentativa de reverter uma situação de conflito, incompreensão ou ofensa, com o fim de se progredir na relação com os outros e na vida de fé. Jesus, no Evangelho de hoje, toma como exemplo uma circunstância em que alguém é ofendido. Humanamente, o lógico seria ficar à espera, e o lesado, mantendo distância face ao causador da dor, teria os motivos para acusar o “culpado” desta situação. A lógica de Jesus é diferente: se a caridade é o pleno cumprimento da lei, então é no amor que se deve buscar a normalidade.

Portanto, segundo o Evangelho, o lesado deve procurar repreender (ou corrigir fraternalmente) quem o magoou e desejar a reconciliação. Provavelmente não imediatamente a seguir ao momento da discórdia e do conflito, mas assim que for possível, com uma escolha adequada de palavras e um coração aberto e vazio de rancor, a reconciliação deve ser procurada. Digo aqui uma escolha adequada de palavras porque elas têm uma capacidade enorme, não só de curar, mas também de matar: as palavras dirigidas em âmbito de correção fraterna não devem ser nem de condenação nem de julgamento. Jesus propõe três possíveis fases neste processo de superação de um conflito: em primeiro lugar, o dialogo a sós; se este não for frutífero, Jesus propõe o recurso a mais duas ou três testemunhas; e por fim, já como solução final, o apelo à Igreja. O que nunca deve deixar de existir é o desejo sincero da reconciliação e da comunhão plena. E se em algum momento parece que as portas se fecharam há que ter consciência de que no futuro algumas janelas se poderão abrir e é preciso estar preparado para aproveitar esses momentos que Deus oferece para investir na reconquista do coração do “irmão”. Porque às vezes é uma questão de tempo e de paciência, condimentadas por uma oração confiante, fonte primária do amor aos inimigos. (Texto elaborado tendo por base a refleção da Liturgia Diária para a missa de cada dia)

Pe. Carlos Correia

segunda-feira, 27 de julho de 2020

XVII DOMINGO DO TEMPO COMUM

1Rs 3,5.7-12
Sl 118(119)
Rm 8,28-30
Mt 13,44-46

Quem Vive na Sabedoria Sabe Onde Se Encontra O Seu Tesouro

O fio condutor que a liturgia deste domingo nos propõe para a nossa meditação é a sabedoria do coração. Na Primeira Leitura, Salomão, protótipo do rei ideal da Antiga Aliança, pede ao Senhor no seu coração a sabedoria: “Dá, pois, ao teu servo, um coração compreensivo, capaz de governar o teu povo e de discernir entre o bem e o mal”. Para Salomão, a sabedoria é o melhor presente que podemos receber de Deus. Por isso, não pede riqueza, nem muitos anos de vida, nem vitórias sobre os inimigos. Ele pede a Deus a sabedoria. Para Salomão, a sabedoria é o tesouro escondido e a pérola preciosa para a sua vida como rei.

Diante daquele pedido sensato e desinteressado do rei Salomão, Deus responde-lhe: “Vou satisfazer o teu pedido. Dou-te um coração sábio e inteligente, como nunca houve outro igual antes de ti nem haverá depois de ti”. Deus concede-lhe um coração dócil e sábio, que põe seu descanso na lei do Senhor, que ama seus mandamentos mais do que o ouro puríssimo e a prata, como reza o Salmo Responsorial: “Eu amo os vossos mandamentos, mais que o ouro, o ouro mais fino! Por isso, eu sigo todos os vossos preceitos e detesto todo o caminho da mentira” (Sl 118).

Todas estas atitudes encontram a sua plenitude, precisamente, no coração do povo simples (Cf. Mt 11,25) que sabe descobrir o valor do Reino dos céus e está disposto a vender tudo quanto tem para o comprar, como mostra o Evangelho deste domingo. Este mistério de Deus, condensado na imagem do campo e da pérola, e cujo conteúdo essencial é Cristo, chega ao seu cumprimento uma vez que reproduzimos em nós mesmos a sua imagem, como lemos na Segunda Leitura.

O mundo apresenta-nos muitos valores que nos fazem deslumbrar: dinheiro, fama, poder e assim por diante. E muitos destes valores vão mudando conforme as modas. Mas a vida necessita de uma razão que coordene todas as nossas atividades, que as impulsione e as ilumine. Em suma, a vida necessita de um tesouro, mas muitas vezes este tesouro está escondido. E nós não podemos ficar sem a razão de viver. Melhor dizendo: não podemos viver sem sentido.

Na verdade o cristão não é qualquer pessoa que foi batizada. O cristão é a pessoa que encontrou um verdadeiro tesouro, a pessoa que encontrou Jesus Cristo, o seu Divino Salvador, que nos ama até ao fim (Jo 13,1) e que nos acompanha em cada momento (Mt 28,20). Basta seguir ou viver de acordo com os seus ensinamentos para poder chegar a uma vida em plenitude.

A Eucaristia é também um tesouro escondido. Tanto que passa despercebida, inclusive para nós que frequentamos a missa com assiduidade. Escondida entre as coisas mais triviais: o pão e o vinho. Aqui se esconde todo o insondável amor de Deus por nós. Só teremos a experiência deste Amor, se começarmos a demonstrar amor aos irmãos, em especial, aos mais débeis.

E nós já descobrimos esse tesouro? Desde que descobrimos a Cristo, o que mudou na nossa vida, no nosso modo de pensar e de falar, e no nosso relacionamento com os outros e com as coisas? Que renúncias nós temos que fazer ainda? “Onde está o teu tesouro, aí está também o teu coração” (Mt 6,21). Será que por algum bem material, ou por alguma posição social abandonamos Jesus Cristo, o nosso tesouro incalculável? Muitos são os esforços que fazemos para encontrar o que nos falta: trabalho, dinheiro, prazer, cultura e assim por diante. Hoje, podíamos perguntar se existe o mesmo esforço para encontrar a Verdade no sentido de uma verdadeira visão da vida. Sem dúvida que esta é uma das crises mais profundas da nossa cultura: tem-se de tudo, mas carece-se do essencial: uma visão geral do homem no cosmos que lhe permita situar-se como homem.

Pe. Carlos Correia