REZEMOS PARA QUE VISITA PASTORAL A VILAR DO PARAÍSO, DE 27 DE OUTUBRO A O1 DE NOVEMBRO, FORTALECA A NOSSA FÉ E NOS TRAGA CAMINHOS DE RENOVAÇÃO CRISTÃ PROPOSTA PELO SÍNODO DIOCESANO: "FORMAR-REFORMAR-TRANSFORMAR" E UNA EM ORAÇÃO DE ESPERANÇA E ALEGRIA A NOSSA COMUNIDADE PARA QUE DÊ FRUTO EM ABUNDÂNCIA
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quarta-feira, 7 de maio de 2025

"Franciscus, tempo e espaço"

"Nada mais estulto do que considerar o Papa Francisco («Franciscus», de ora em diante, como o próprio ordenou que fosse posto sobre a campa em que repousam os seus restos mortais) como um Homem de pensamento débil, fácil, quiçá improfundo. A haver algumas destas qualidades, estarão presentes não no próprio, mas nos que o leem.

Exemplo da sua extraordinária profundidade de pensamento é o pedaço de texto sobre que se irá brevemente ponderar, retirado de Evangelii gaudium, § 222: «Existe uma tensão bipolar entre a plenitude e o limite. A plenitude gera a vontade de possuir tudo, e o limite é o muro que nos aparece pela frente. O “tempo”, considerado em sentido amplo, faz referimento à plenitude como expressão do horizonte que se abre diante de nós, e o momento é expressão do limite que se vive num espaço circunscrito. Os cidadãos vivem em tensão entre a conjuntura do momento e a luz do tempo, do horizonte maior, da utopia que nos abre ao futuro como causa final que atrai. Daqui surge um primeiro princípio para progredir na construção de um povo: o tempo é superior ao espaço.» (versão constante da edição Paulus Editora, sem identificação de quem traduziu, pp. 157-158). O texto continua, no § 223, explicitando as consequências de tal princípio. Dedicamo-nos à compreensão do § 222, eventualmente recorrendo ao § 223 sempre que se justifique."

terça-feira, 22 de junho de 2021

«A GRANDE DESGRAÇA DESTE MUNDO NÃO É HAVER PESSOAS SEM-DEUS, MAS QUE SEJAMOS CRISTÃOS TÃO MEDÍOCRES»

(...)
A verdadeira questão da Igreja é não saber gerar mais que cristãos e padres medíocres, aburguesados, combatidos pela posição a ter no confronto dramático com a história: a posição do sofá ou a de adequar-se aos “novos movimentos” na moda e à sua pretensão de fundar um mundo novo. Um padre não pode permanecer medíocre a longo prazo. É verdade, no entanto, que de padres medíocres – marinheiros de água doce, para usar uma expressão de S. Camillo de Lellis – temos que chegue. A mediocridade, com efeito, navega sempre em águas doces. A autenticidade, pelo contrário, experimenta-se em mar aberto.

«O chamamento de Cristo é para os fortes; é para os rebeldes à mediocridade e à cobardia da vida cómoda e insignificante; é para aqueles que ainda conservam o sentido do Evangelho e sentem o dever de regenerar a vida eclesial pagando-o em pessoa e carregando a cruz» (Paulo VI).
(...)
«A Igreja não precisa de muitos burocratas e funcionários, mas de missionários apaixonados, devorados pelo entusiasmo de comunicar a verdadeira vida. Os santos surpreendem, desinstalam, porque a sua vida nos chama a sair da mediocridade tranquila e anestesiadora» (ibidem).


sexta-feira, 5 de março de 2021

“LUZ PARA O MUNDO"

 «Oh Lord, hear my voice, when I call...» Salmo 27: «Senhor, escuta a minha voz, quando te chamo». O canto é envolvido é envolvido por um som etéreo, delicado, quase evanescente, como uma carícia que parece vir de muito longe, ou simplesmente de dentro de nós. É um convite a dirigir-se ao Senhor com amizade e com confiança: Ele saberá dar alívio e descanso aos nossos medos e às nossas fadiga. “All who labour”, do Evangelho: «Vinde a mim, vós todos que estais cansados e oprimidos», diz Jesus. Mas a voz que ergue estas orações a Deus não é apenas uma : é um coro, um “ensemble”, um concerto de vozes, as das Poor Clares de Arundel, as Clarissas de Arundel, uma povoação do West Sussex, no sul de Inglaterra, a 100 km de Londres.
(...)
Há um par de anos, as Clarissas receberam uma proposta dos produtores e compositores James Morgan e Juliette Pochin, que nutriam o projeto de unir a música sacra a um som mais próximo dos nossos tempos, casando o canto medieval a algumas matizes eletrónicas. «Convidámos Morgan para uma das nossas orações de Vésperas: sinceramente, pensávamos que, depois de nos ter escutado, mudaria de ideias», recorda a Ir. Gabriel. «Em vez disso, disse-nos que tinha apreciado muitíssimo o tom do nosso canto». Gravar um disco estava a anos-luz dos pensamentos das irmãs de Arundel: «Inicialmente tivemos muitos temores, sentíamos-nos inseguras por tornar públicos os nossos cantos, mas a ajuda destes especialistas apoiou-nos», revelam. «Não o fizemos, seguramente, para nos tornarmos famosas. Agrada-nos que todos possam conhecer a essência das nossas vidas, aquilo em que acreditamos e aquilo que nos traz alegria. E encorajou-nos pensar que há uma grande necessidade de ajudar as pessoas a encontrar um sentido de paz interior, e até a beleza dentro de si», acrescenta a Ir. Gabriel.
(...)
O desejo das Clarissas é chegar sobretudo aos jovens. «Ficarei feliz se um jovem, sem fundamento de fé, ao escutar estas faixas, pudesse compreender que todos somos rodeados de Amor, e ninguém está só neste mundo difícil», assinala a Ir. Aelred. Evidentemente a mensagem chegou, ao ponto de o álbum se ter aproximado daqueles de estrelas como Bruce Springsteen ou Taylor Swift - «divertiu-nos muitíssimo», admite, sorrindo, uma das irmãs. A 18 de março sairá uma versão especial, com a duração de oito horas, com diversas variações. A Luz acesa em Arundel está agora a dar a volta ao mundo. Para fazer “brilhar” muitas almas.

segunda-feira, 1 de março de 2021

A CORAGEM DA IRMA ANN

 Ajoelhou-se e implorou-lhes para pararem. «Em nome de Deus, poupai aquelas jovens vidas. Levai a minha.» A Ir. Ann Nu Thawng, religiosa da Ordem de S. Francisco Xavier – congregação de direito diocesano na diocese de Myityina, no norte de Myanmar –, tinha até então permanecido entre as paredes do seu convento, apoiando com o silêncio, a oração, o encorajamento espiritual, aqueles jovens que desfilavam apaixonados pelas ruas, pedindo liberdade e democracia. Ontem, no entanto, sem delongas, transformou esse apoio moral numa ação corajosa que se revelou decisiva para evitar uma carnificina. 
(...)
A coragem da Ir. Anna permitiu a pelo menos cem manifestantes encontrar refúgio no convento das religiosas, enquanto 40 feridos foram conduzidos à clínica anexa, onde receberam os primeiros socorros. A violência cessou, e o confronto, que podia ter-se transformado em tragédia, não teve seguimento. A mediação espontânea da Ir. Ann teve um inesperado sucesso. Patricia Yadanar Myat Ko, uma das jovens que se abrigou no mosteiro, declarou: «Fomos salvos pela miraculosa intervenção da irmã. É uma verdadeira heroína. Devemos-lhe a vida». «Só com o seu apelo sentido a Ir. Ann conseguiu travar os militares que se enfureciam sobre os jovens. É um modelo para a Igreja em todo o Myanmar. E, depois de ter acalmado os ânimos, apressou-se a ir tratar os feridos», acrescentou Joseph Myat Soe Lat, outra das testemunhas oculares.

https://snpcultura.org/a_coragem_da_irma_ann.html

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

ADORAÇÃO, GESTO FORTE DA QUARESMA

 
Gostaria de vos conduzir ao deserto para aí adorar Deus. Sei bem que as vossas vidas são tomadas num turbilhão indiferente, por vezes inclusive hostil, à Quaresma e às suas exigências. Ao olhar para as nossas experiências passadas da Quaresma, receamos começar com fervor e terminar com a triste confissão de uma tibieza de trinta e nove dias, e até quarenta. Mas, ainda assim, gostava de vos conduzir ao deserto para seguir Jesus. Deixai-me tentar. Será que esta viagem cabe na vossa agenda?
(...)
Em todas as circunstâncias, adorar

A adoração é um ato voluntário: posso adorar Deus quando quiser, em todas as circunstâncias.

Posso dizer-lhe: «Senhor, eis-me na tua presença, e reconheço que Tu és o primeiro na minha vida. Tu és o meu Deus, o meu criador e o meu Pai, e eu entrego-me entre as tuas mãos. Toma a minha vida e tudo o que me pertence, porque eu amo-te e só quero pertencer a ti».

Este ato pode durar um minuto; um pouco menos ou muito mais, segundo as circunstâncias.

De manhã, ao levantar, a adoração pode ser o primeiro ato que dá a sua cor ao meu dia. Da mesma forma, à noite, ao deitar. E porque não durante o dia, entre duas atividades, por exemplo? Para me ajudar, posso fixar vários encontros horários por dia.

Se as circunstâncias o permitirem, posso pôr-me de joelhos, como Moisés prostrando-se diante de Deus. Se não, no meu coração prostro-me e recolho-me um instante até que tenha colocado Deus no seu lugar, no centro da minha vida.

E desta maneira, depondo atos de adoração, tornou-me, aos poucos, um adorador.

https://www.snpcultura.org/adoracao_gesto_forte_quaresma.html

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

O DOM DE FÁTIMA

(...)
Mas pensemos na Cova da Iria, em 1917: era um desses lugares onde não poderíamos ser visitados, tal como Nazaré nunca poderia ter sido o lugar aonde Deus enviasse o anjo. Está tudo certo. Em 1917, a esmaecida Europa cristã era uma espécie de casca frágil que as trincheiras e as valas comuns, ao modo das fronteiras, partia impiedosamente; e Portugal, que na sua automitografia se arrogou objeto de uma particular predileção divina, era pouco mais do que uma nação periférica, vítima endémica de pobreza, analfabetismo e outras pandemias. E é na periferia dessa periferia, num desses baldios do mundo, que por meio dessas crianças fomos visitados.

Sempre me irritou aquele catolicismo nacionalista que usou uma mariologia envesgada como arma de arremesso contra os histerismos e os rancores anticlericais que, em Portugal, foram sempre tão institucionais quanto um certo clericalismo provinciano, com os seus caciques e provisionamentos de retórica bafienta. Sempre me irritou aquela fação snob – dentro e fora da Igreja – que paternalisticamente considerou e considera Fátima um entretenimento religioso para a turbamulta. E sempre me irritaram aqueles cristãos que viram e veem Fátima como uma «tábua de salvação» para a Igreja portuguesa. Digamo-lo sem medo: Fátima é circunstancial e só assumindo desarmadamente esta perspetiva é que poderemos dar graças pelo dom de Fátima. É circunstancial, mas é à luz do circunstancial que o essencial frutifica, na vida de cada um, em estado de graça. E é à luz do essencial que podemos dar graças pelo dom do circunstancial.

Não faltarão especialistas a refletir sobre o fenómeno de Fátima desde a perspetiva da Teologia ou da História; eu prefiro concebê-lo poeticamente: para mim, Fátima é uma poética.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

TRINDADE: DEUS É COMUNHÃO, VÍNCULO, ABRAÇO

(...) Deus conserva: este mundo e eu, cada pensamento bom, cada generosa fadiga, cada dolorosa paciência; nem um cabelo da vossa cabeça se perderá (Lucas 21,38), nem sequer um fio de erva, nem sequer um fio de beleza desaparecerá no nada.

O mundo é salvo porque amado. Os cristãos não são aqueles que amam Deus, são aqueles que acreditam que Deus os ama, que pronunciou o seu «sim» ao mundo, antes que o mundo diga «sim» a Ele.

Festa da Santíssima Trindade: anúncio que Deus não é em si mesmo solidão, mas comunhão, vínculo, abraço. Que nos alcançou, e liberta, e faz erguer em voo uma pulsão de amor.

https://www.snpcultura.org/Trindade_Deus_e_comunhao_vinculo_abraco.html

sábado, 28 de março de 2020

À ESPERA DA MAMÃ

Num lar, dezenas de idosos ficaram sozinhos depois de o vírus ter matado um hóspede, contagiado outros, e ter mandado o pessoal para a quarentena. Nos últimos meses, ao acompanhar no hospital uma nonagenária, vi de perto o que significa ser-se velho, só e doente. Numa sala de emergência no centro de uma grande cidade, poucos dias antes da epidemia, muitos, sozinhos, chegavam de noite, de ambulância. No corredor, uma fileira de macas. Alguns estavam ali há 24 horas, não tinham dormido nem sequer comido.

Se penso naqueles rostos brancos, de cabelos desgrenhados, nos chamamentos a que um único enfermeiro de turno não conseguia responder, posso vagamente imaginar como será com aqueles idosos completamente abandonados no lar.

Naquela mesma noite, uma doente pediu-me para lhe escrever num papel o seu nome e morada, porque temia esquecer-se. Outra chorava porque as necessidades lhe escapavam e ninguém a levava à casa de banho. Um homem tinha sede, e um de nós, desconhecidos, levou-lhe água. O Covid ainda não tinha chegado, mas aqueles pobres não tinham os filhos ao seu lado.  Os seus gemidos pareciam-me um coro de envelhecidos bebés, impotentes como lactantes. Temo que hoje, num qualquer lugar, aquele coro dilacerante se repita.

Há anos, num lar, uma idosa só, num banco, perguntou-me, olhando-me com os olhos de uma candura infantil: «Senhora, sabe quando é que a minha mamã me vem buscar?». No limbo da demência, alguns esperam pela mamã, que tarde, mas seguramente, as virá buscar, como na escola, em remotas manhãs. E no inferno do Covid penso nas pessoas perdidas na demência, que esperam pela mamã. Que esperam aquela mão amada que as conduza, finalmente, a casa – à nossa verdadeira casa.

quinta-feira, 12 de março de 2020

DA TUA ARIDEZ, FAREI BROTAR FONTES

(...)
«Deus pode recuperar as mínimas coisas deste mundo sem as quebrar, melhor ainda, pode recuperar aquilo que está rompido e disso fazer um canal» (Fabrice Hadjaji), através do qual a água chegue e corra, o vinho desça e chegue aos comensais, sentados à mesa da minha vida.

E é assim que em torno à samaritana nasce a primeira comunidade de discípulos estrangeiros. «Venham, está no poço alguém que te diz tudo aquilo que está no coração, que dele faz nascer fontes.» Que conhece o todo do ser humano e coloca em cada um uma fonte de bem, fonte de futuro. Sem remorsos nem nostalgias. Onde banhar-se de luz.

Nestes nossos dias “sem” (sem celebrações, sem liturgias, sem encontros), sentimos atual a pergunta da samaritana: onde iremos para adorar Deus? Ao monte ou ao templo? A resposta é direta como um raio de luz: não sobre um monte, não num templo, mas dentro. Em espírito e verdade.

Sou eu o monte, eu o templo, onde vive Deus (M. Marcolini).

ÉTICA EM TEMPO DE COVID 19

A emergência do Covid-19 está a colocar duramente à prova muitas nações, impreparadas perante uma pandemia inesperada e de rápida difusão.

Os nossos hábitos estão a mudar, em virtude de um apelo à responsabilidade que limita muitas das nossas atividades diárias e das nossas relações.

Também a ética é interpelada para oferecer respostas ou iniciar o desencadeamento de processos diante esta situação de emergência.

É necessário chamar as consciências a uma ética da responsabilidade. Num momento de emergência e de crise, onde nem sequer as normas conseguem cobrir a pluralidade dos casos que a realidade nos apresenta, é preciso consolidar um discernimento amadurecido capaz de reter não aquilo que é útil por si, mas aquilo que constitui “o melhor possível” a fazer para concretizar a caridade e o bem comum.

terça-feira, 3 de março de 2020

AGENDA PARA UM DIA DE QUARESMA

Ao acordar, recitar a oração de S. Francisco, «Senhor fazei de mim um instrumento…».

Meditação a partir dos textos da liturgia.

Esquecer-me de mim. Procurar a vontade de Deus.

Dar mais tempo, ao pequeno-almoço, àqueles que vivem comigo.

Trabalhar em silêncio.

Ser mais paciente. Acolher de bom grado os casos e as situações imprevistas.

Não alimentar os tais pensamentos.

Concluir o trabalho e enviar.

Convidar o A. para o almoço de quinta.

Fazer a visita adiada, com tempo.

Ser causa de alegria para os outros. Dizer mais vezes obrigado.

Rezar pelos que estão em dificuldades.

Não esquecer de ligar à S. e à família.

Não ser portador de más notícias. Não reagir às ofensas. Não regatear a atenção alheia. Não guardar rancor. Não ceder à tentação da ganância e da competição que apenas exclui.

Aceitar as contrariedades. Suportar ser desprezado.

Reduzir o tempo nas redes sociais.

Não alimentar certas conversas. Abster-me de palavras e reações agressivas.

Ser próximo de quem precisa. Estar disponível para…

Perdoar e perdoar-me.

Rever os textos da liturgia. Participar na celebração eucarística como o momento mais extraordinário do dia.

Apenas sopa, se possível, ao jantar.

Retomar o hábito da vigília noturna com exame de consciência e oração de Completas.

Dar graças a Deus.

https://www.snpcultura.org/agenda_para_um_dia_de_quaresma.html

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

A «LOUCURA DIVINA» DE SANTA JACINTA MARTO

(...)
«“A Jacinta possuía uma alma requintada, cheia de finíssimos sentimentos. Amava as ovelhas e designava a cada uma delas pelo seu nome, [...] e os cordeiritos brancos eram o seu enlevo. [...] Amava as flores [...] na serra que fartura, que riqueza, especialmente na primavera! [...] Era um alvoroço quando descobria as primeiras rosas albardeiras. [...] Amava as estrelas, a que chamava ‘as candeias dos Anjos’, e desafiava a prima e o irmão a que contassem maior número do que ela. Amava o Sol que doira a serra com os seus raios esplendorosos. Amava ainda mais a claridade da Lua, ‘a lâmpada de Nossa Senhora’, como ela também lhe chamava, porque, como dizia, a lua não faz mal ao olhar. Quando a lua era cheia corria a dar a boa nova. [...] Amava os montes e tudo o que de belo criou o Divino Artífice” (MARCHI, 2011:23-24). Mas qual é a razão profunda desta admiração sem limites por todos os seres vivos e criados? A Escritura explica-nos: “Com efeito, pela grandeza e beleza das criaturas, pode-se, por analogia, chegar ao conhecimento do seu Autor” (Sb 13, 5). Nesta linha, a Irmã Lúcia acrescenta: “Toda a natureza foi criada para nos falar de Deus e revelar-nos a grandeza do mistério de Deus.” E sublinha: “Se quisermos escutar, toda a obra criada nos fala de Deus criador” (LÚCIA, 2002: 118-119).»

PARA VOLTAR A LER: "Morreste-me"...

Textos compostos por António Filipe Barbosa, Fernando Rosas, João Duque, José Nuno Silva e José Pedro Angélico incluídos nas 65 páginas do livrinho serviram de base aos conteúdos do folheto.
(...)
Estranhamente, a luz ténue da esperança cristã apresenta duas facetas paradoxais, em relação à morte. Por um lado, surge como salvação da morte e, nesse sentido, como condenação da morte, enquanto o que de pior pode acontecer aos humanos – e que é experimentado, sobretudo, na morte do outro que amamos; por outro lado, o caminho da esperança cristã só é possível através da morte, isto é, depois de dita a penúltima palavra sobre nós, pois é essa palavra que coloca um ponto final na nossa vida terrena e, desse modo, torna essa vida completa – mesmo que, na nossa perspetiva, pareça estar sempre incompleta. Ou seja, cada um de nós só será ele mesmo, sem mais possibilidade de alterar a sua identidade, quando morrer, por mais breve que seja o seu tempo de vida. Assim, a morte é inevitável, não apenas de facto – todos sabemos que morreremos – mas, em certo sentido, de direito – somos seres biologicamente finitos e, para o «encerramento» do nosso processo de construção da identidade pessoal, temos que morrer.
(...)
A impossibilidade dessa esperança apenas nos conduz ao absurdo, ao sem-sentido completo de todos os nossos desejos e aspirações, assim como das nossas realizações. Nesse sentido, poderíamos dizer que é mais humanizante esperar para além da morte do que desesperar com a morte. E é essa esperança que nos dará coragem para acreditarmos no ser humano, apesar de tudo – apesar da morte.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

AJUDAR A MORRER OU APRENDER A VIVER

Volta a abrir-se o debate sobre o carácter ético e legal de uma opção extrema como nenhuma outra, que interpela a sociedade nos domínios do religioso, filosófico, social, civil, legislativo e mesmo económico.

A primeira coisa a tomar consciência é de que, quer se goste quer não, vivemos numa sociedade pluralista, na qual se confrontam visões de vida diferentes, por vezes muito distantes e, algumas vezes, contrapostas.

Simplifico, para ir direto à questão: uma coisa é pensar que o ser humano é a casual e imprevisível combinação de um conjunto de células, outra é acreditar que, em princípio, há um Deus criador que infunde o seu sopro vital no ser humano. E ainda: uma perspetiva é considerar que, depois da morte, seremos apenas pasto para os vermes ou cinzas a espalhar pelos montes ou no mar, outra é afirmar que a morte é «entregar a alma a Deus».

Naturalmente, entre dois extremos, há toda uma série de crenças, sensibilidades e modos de situar-se perante a vida e a morte.

Visões tão diferentes poderão conviver num quadro legislativo que satisfaça todos, ou pelo menos o maior número de cidadãos? As pressões para o reconhecimento de muitos direitos “individuais” são ou não contrabalançadas com uma série de deveres que dizem respeito ao cidadão individual e a toda a comunidade?

É suficiente, à luz não de uma fé religiosa, mas da Constituição, assegurar a alguns um percurso de “boa morte” (à letra: eutanásia), sem primeiro fazer com que cada vida, inclusive a mais atingida por malformações e enfermidades, seja vivível?  O que pode/deve fazer o Estado para remover os obstáculos que impedem o pleno desenvolvimento da personalidade de todos os cidadãos, a começar pelos mais necessitados de cuidados?

Digamo-lo sem rodeios: a opção de decisões extremas, quanta despesa evita à finança pública? E depois: de que modo se decidirá pela “boa morte” de quem não está (ou já não está) capacitado para compreender e querer?

Concluo citando, em vez do Evangelho, dois autores importantes da literatura contemporânea, Cesare Pavese e Giuseppe Ungaretti. Um, no dia antes de se suicidar, deixa escrito «ó Tu, tem piedade». O outro, imerso na carnificina da primeira guerra mundial, confia a um verso o pensamento de que «a morte desconta-se vivendo».

O Tu indeterminado de Pavese refere-se, como se lo queira entender, a Alguém para além de si; para Ungaretti, para beneficiar da morte é preciso viver. E, acrescento eu, viver bem, isto é, não só para si, mas para os outros, sobretudo para quem está pior que nós.

Pedido de piedade e sentido de solidariedade perante a morte não poderiam ser a difícil, mas possível, via que junta cristãos, crentes de outras fés e não crentes, a fim de que a morte não deixe de nos tornar mais humanos?


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

"ESPOSOS E SANTOS"

No Dia dos Namorados, recuperamos um livro e o exemplo de dois esposos que viveram o amor conjugal à luz do Evangelho.

«Como te estou grato pelo bem que o teu amor me faz, que me encoraja para viver e para as outras lutas, porque é o viver, o trabalhar e o lutar que representam para mim o único objetivo! Foste a minha fada benfeitora que me salvou a alma do ceticismo; por isso, em compensação fiz de ti a «minha» senhora, que venero e que adoro».
(...)
Bebendo na Palavra de Deus e no testemunho dos santos, os Bem-aventurados Luigi e Maria viveram de modo extraordinário uma vida comum feita de trabalho, de cuidado dos filhos, de deveres e obrigações culturais e sociais, e de muitíssimos outros aspetos.

A Igreja reconhece neles um exemplo de dedicação à família, à sua atividade profissional e, ao mesmo tempo, de uma espiritualidade cristã vivida operosamente no matrimónio e na família.

Como esposos souberam viver sempre, dia a dia, com a mudança dos tempos, uma jubilosa comunhão de vida, marcada por uma ternura inefável e apaixonada, que foi sempre crescendo cada vez mais na capacidade de superar dificuldades e incompreensões, oferecendo assim a imagem fiel do amor de Deus.

Na morada da rua Depretis, também denominada "piccola Betania" (pequena Betânia), testemunharam o amor do Pai, a sua ternura e a sua misericórdia, e foram capazes de crescer no serviço realizado em numerosos ambientes, deixando-se sustentar pela graça do matrimónio tanto nos momentos alegres como nos tristes da vida, até à perfeição da santidade.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

ORAÇÃO SILENCIOSA PARA AS CRIANÇAS? É POSSÍVEL!

As crianças podem rezar de coração a coração com Deus? Sim, responde Anne-Marie Le Bourhis, formadora de catequistas e membro do instituto secular Notre-Dame de Vie, em Venasque, próximo da cidade francesa de Marselha.

Propõe conduzir as crianças a um tempo de oração silenciosa durante a sua formação catequética. Porquê?

O propósito de toda a catequese é colocar alguém não apenas em contacto, mas também em comunhão, em intimidade com Jesus Cristo: «Só Ele (…) nos pode fazer participar na vida da Trindade Santa», dizia João Paulo II na “Catechesi tradendae”. A oração interior, portanto silenciosa, é uma das formas de oração que permite religar-nos a Deus. Nos anos 60, educadoras do pré-escolar perguntaram ao P. Marie-Eugène do Menino Jesus, fundador do Instituto Notre-Dame de Vie, como fazer para rezar com os pequenos. Ele encorajou-as: «As crianças são capazes de Deus… Conhecê-lo e amá-lo é a experiência fundamental a propor-lhes». Começou então, com as crianças, uma longa experiência de aprendizagem do diálogo de amor com Deus. Não sem dificuldades.
(...)
Todas as crianças são chamadas a esta oração?

As crianças batizadas receberam todo “o equipamento necessário”: a fé, a esperança e a caridade, bem como a capacidade de receber os dons do Espírito Santo. Este dom do Batismo permite entrar livremente num verdadeiro intercâmbio com o Senhor. Obviamente, Deus é livre de intervir fora dos sacramentos… O seu desejo é de se dar, de converter o coração de cada pessoa. Que ela se possa assemelhar cada vez mais a Jesus Cristo.
(...)
Pistas para um tempo de oração interior (Véronique Bourillon)

- Preparar um espaço belo e fazer entrar as crianças em procissão, cada uma com uma vela.
- Apresentar-se a Jesus em voz alta: «Aqui estou eu, chamo-me…».
- Instalar-se tranquilamente e entoar um canto ao Espírito Santo escolhido pelas crianças.
- Fazer um ato de fé na presença do Senhor.
- Fechar os olhos e pedir às crianças para convidarem Jesus a entrar no seu coração.
- Colocar à sua disposição pequenas frases meditativas, que poderão ler de tempos a tempos, em alternância com o silêncio.
- Respeitar a oração das crianças e deixá-las ser protagonistas.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

"AS CRIANÇAS SÃO ESPERANÇA"

«Quando vejo uma criança como tu, sinto no coração muita esperança»; «sê feliz quando estás junto aos outros»; «dança e exprime a alegria que está no teu coração; dança agora que és uma criança, assim não serás demasiado sério quando te tornares grande»; «aprende a cultivar todos os dias a graça de amar. Assim encontrarás Deus»; «estar junto dos outros dá alegria. Brinca com os outros como se fosse uma equipa, e procura o bem em todos»; «eu e tu podemos fazer da Terra um lugar mais belo. A melhor maneira de vencer uma luta é não começá-la»; «quanto estás triste, não tenhas medo de chorar. Jesus compreende os teus problemas. Reza em silêncio, e deixa que as palavras nasçam das lágrimas»; «sorri sempre».

Estes são alguns dos conselhos que o papa Francisco propõe no livro “I bambini sono speranza” (“As crianças são esperança”) aos seus “amigos do coração”, a quem reserva sempre uma atenção especial em qualquer circunstância, mesmo durante as audiências mais formais, e quando a etiqueta requereria tempos e modos nem distantes da simplicidade e da imediatez dos mais pequenos.

Pintada a cores vivas pela ilustradora norte-americana (nascida em Itália) Sherre Boyd, a obra de 32 páginas foi originalmente publicada em 2019 nos EUA, com o título “Pope Francis says…” (igualmente em castelhano, “El papa Francisco dice…”), pela editora Loyola Press, e hoje o Vaticano noticiou a sua disponibilidade em italiano (ed. Salani).

O papa dirige-se às crianças com linguagem simples e frases breves, quase sussurradas, como se fossem os preciosos conselhos de um avô, apresentando exemplos concretos que inspiram sentimentos de confiança, alegria e amor.

Ao entrar em pontas dos pés no mundo das crianças, Francisco acompanha com delicadeza os vários momentos do seu dia – nas brincadeiras, na tristeza –, falando-lhes como se as sentasse sobre os seus joelhos.

Olhar o mundo com os olhos de um menino, de uma menina: ao encontrar-se, no Vaticano, com os pequeninos doentes de um departamento médico pediátrico, Francisco disse: «Para compreender a realidade da vida, é preciso baixar-se, como nos baixamos para beijar uma criança».

À semelhança de “Querido papa Francisco” (ed. Paulinas), publicado em 2016, este livro retrata crianças de diferentes culturas, e foi organizado pelo padre jesuíta italiano Antonio Spadaro.

Nestes dias, a UNICEF divulgou que cerca de cinco milhões de crianças no Burkina Faso, Mali e Niger precisarão de assistência humanitária em 2020, um número em crescimento face ao ano anterior, por causa do aumento da violência. As notícias de mortes na infância por falta de alimentação e tratamento para doenças facilmente curáveis, bombardeamentos, exploração e um sem-número de causas são recorrentes. Ainda assim, mesmo quando a sua infância lhes é negada, as crianças são esperança e alegria, são «o melhor do mundo».

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

"BATISMO: MERGULHAR NUM OCEANO DE AMOR"

A cena grandiosa do Batismo de Jesus (Mateus 3,13-17), com o céu rasgado, com o voo de asas abertas do Espírito sobre as águas do Jordão, com a declaração de amor de Deus, aconteceu também no meu Batismo, e acontece ainda a cada reinício.

A Voz, a única que soa dentro da alma, repete a cada um: tu és meu filho, o amado, em ti pus o meu comprazimento. Palavras que ardem e queimam: filho meu, amor meu, alegria minha.

Filho é a primeira palavra. Filho é um termo poderoso sobre a Terra, poderoso para o coração do ser humano. E para a fé. Deus gera filhos segundo a sua espécie, e eu e tu, nós todos temos o cromossoma do pai nas nossas células, o ADN divino em nós.

Amado é a segunda palavra. Antes que tu ajas, antes que tu digas «sim», que tu o saibas ou não, a cada dia, a cada despertar, o teu nome para Deus é «amado». De um amor que te antecede, que te antecipa, que te envolve prescindindo daquilo que hoje serás e farás.
(...)
A terceira palavra: meu comprazimento. Termo desusado, inusual, todavia belíssimo, que no seu núcleo contém a ideia de prazer. A Voz grita do alto do Céu, grita sobre o mundo e dentro do coração, a alegria de Deus: é belo contigo, filho meu; tu dás-me prazer; estar contigo enche-me de alegria.
(...)
Eu sou mergulhado em Deus, e Deus é mergulhado em mim; eu na sua vida, Ele na minha vida; «aperta-me a ti, aperta-te em mim» (G. Testori). Sou dentro de Deus, como dentro do ar que respiro, dentro da luz que me beija os olhos; mergulhado numa fonte que nunca se esgotará, submergido num ventre vivo que alimenta, faz crescer e protege: batizado.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

ESCUTAR O SILÊNCIO

Falar do silêncio. Dita assim, a frase parece um paradoxo, uma contradição dos termos. Por outro lado, acontece como para todas as realidades grandes e essenciais: só se compreende bem colocando-o em confronto/contraste. Como a vida se compreende bem à luz da morte, assim o silêncio assume sentido se confrontado com a palavra.

Com a qual, contudo, se reconcilia, porquanto silêncio e palavra são duas formas de uma mesma coisa, a linguagem, que é por essência modalidade da comunicação, da relação que se cria entre nós e qualquer coisa que é “outra”, até com aquela parte de nós próprios que sentimos como região “diferente” e obscura para a qual não encontramos palavras. Não falamos nós de “voz” ou “som do silêncio”? Recorda-me uma bela canção, porque o silêncio é também música.

terça-feira, 19 de março de 2019

DIA DO PAI: Meio século de apagamento no Ocidente, mas continua a ser preciso

Ainda é possível ser “pai” no Ocidente, após cerca de 50 anos gastos a “matar o pai” (como nos pedia com insistência a psicanálise freudiana), ou a definir a paternidade como supérflua (segundo a habitual cultura radical chique da autonomia a todo o custo), ou a eliminar a sua presença (como nas leis sobre o aborto), ou a torná-la facultativa (na legislação sobre o matrimónio e educação dos filhos), ou a considerá-la uma pura construção cultural-social (segundo as teorias do género)? Com efeito, este ambiente tão hostil criou na nossa sociedade uma espécie de obscuridade do pai, da qual é inevitável pagar as consequências.

A primeira é que não só não há mais “pais”, como também não há adultos, porque a paternidade significa o pleno cumprimento do caminho do adulto.

Se a vida, efetivamente, é dom recebido que tende pela sua natureza a tornar-se bem dado, uma pessoa torna-se adulta quando opta explicitamente por passar da fase passiva da receção do dom à ativa do dom de si. Adulto é, portanto, aquele que gera, que toma cuidado pelo outro, que dele se sente responsável e guardião, que dele carrega peso e fragilidade, inclusive no mal.
(...)
Se desaparece o pai, desaparece também toda a responsabilidade, e construímos um mundo de crianças perenemente litigantes, ou de (pré)adolescentes irascíveis, adultos só na conservatória do registo civil. Um mundo onde mais ninguém se encarrega de ninguém.
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Por isso, o pai ainda é necessário hoje, como sempre. Mas é preciso que haja na Igreja caminhos formativos para a vocação paterna. A mais bela que existe!