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domingo, 1 de setembro de 2024

DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO PELO CUIDADO DA CRIAÇÃO

Espera e age com a criação

Queridos irmãos e irmãs!

“Espera e age com a criação”: é este o tema do Dia de Oração pelo Cuidado da Criação, que se realizará no próximo 1 de setembro. Refere-se à Carta de São Paulo aos Romanos 8, 19-25. O Apóstolo, ao esclarecer o significado de viver segundo o Espírito, concentra-se na esperança firme da salvação pela fé, que é vida nova em Cristo.

1. Comecemos, pois, por uma pergunta simples, mas que poderia não ter uma resposta óbvia: quando realmente acreditamos, como é que temos fé? Não é tanto porque “acreditamos” em algo transcendente e incompreensível para a nossa razão, ou seja, o mistério inacessível de um Deus distante e longínquo, invisível e inominável. Antes, é porque o Espírito Santo habita em nós, como diria São Paulo. Sim, somos cristãos porque o próprio Amor de Deus foi «derramado nos nossos corações» (Rm 5, 5). Por isso, o Espírito é agora, verdadeiramente, a «garantia da nossa herança» (Ef 1, 14), como uma “pro-vocação” a vivermos sempre inclinados para os bens eternos, segundo a plenitude da humanidade bela e boa de Jesus. O Espírito torna os fiéis criativos, proativos na caridade. Coloca-os num grande caminho de liberdade espiritual, não isento da luta entre a lógica do mundo e a do Espírito, que têm frutos opostos entre si (Gl 5, 16-17). Como sabemos, o primeiro fruto do Espírito, síntese de todos os outros, é o amor. Assim, guiados pelo Espírito Santo, os que acreditam são filhos de Deus e podem dirigir-se a Ele tal como Jesus, chamando-lhe «Abbá, ó Pai» (Rm 8, 15), na liberdade de quem já não recai no medo da morte, porque Jesus ressuscitou dos mortos. Eis a grande esperança: o amor de Deus venceu, vence sempre e vencerá de novo. Apesar da morte física, o destino de glória já está garantido para o homem novo que vive no Espírito. Esta esperança não desilude, como também nos recorda a Bula de proclamação do próximo Jubileu[1].

2. A existência do cristão é vida de fé, laboriosa na caridade e transbordante de esperança, enquanto aguarda o regresso do Senhor na sua glória. E a “demora” da parusia, da sua segunda vinda, não causa qualquer problema. A questão é outra: «quando o Filho do Homem voltar, encontrará a fé sobre a terra?» (Lc 18, 8). Sim, a fé é um dom, fruto da presença do Espírito em nós, mas é também uma tarefa, a realizar em liberdade, na obediência ao mandamento do amor de Jesus. Eis, aqui, a feliz esperança que deve ser testemunhada! Onde? Quando? Como? No interior dos dramas da carne humana que sofre. E se alguém sonha, então que sonhe com os olhos abertos, animados por visões de amor, fraternidade, amizade e justiça para todos. A salvação cristã entra no âmago da dor do mundo, que não atinge apenas o ser humano, mas todo o universo, a própria natureza, o oikos do homem, o seu ambiente vital; ela abarca a criação como “paraíso terrestre”, a mãe terra, que deveria ser lugar de alegria e promessa de felicidade para todos. O otimismo cristão baseia-se numa esperança viva: sabe que tudo tende para a glória de Deus, para a consumação final na sua paz, para a ressurreição corporal na justiça, “de glória em glória”. Contudo, no tempo que passa, partilhamos dores e sofrimentos: toda a criação geme (cf. Rm 8, 19-22), os cristãos gemem (cf. vv. 23-25) e o próprio Espírito geme (cf. vv. 26-27). Gemer manifesta inquietação e sofrimento, juntamente com anelo e desejo. O gemido exprime confiança em Deus e abandono à sua companhia amorosa e exigente, tendo em vista a realização do seu desígnio, que é alegria, amor e paz no Espírito Santo.

3. Toda a criação está implicada neste processo de um novo nascimento e, gemendo, espera a libertação: trata-se de um crescimento escondido que amadurece, como “um grão de mostarda que se transforma numa grande árvore” ou “o fermento na massa” (cf. Mt 13, 31-33). Os inícios são minúsculos, mas os resultados esperados podem ser de uma beleza infinita. Enquanto expectativa de um nascimento (a revelação dos filhos de Deus), a esperança é a possibilidade de permanecer firme no meio das adversidades, de não desanimar nos momentos de tribulação ou diante da barbárie humana. A esperança cristã não desilude, mas também não ilude: se o gemido da criação, dos cristãos e do Espírito é antecipação e expectativa da salvação já em ato, São Paulo descreve os numerosos sofrimentos em que estamos imersos como «tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo, espada» (cf. Rm 8, 35). Assim, a esperança é uma leitura alternativa da história e dos acontecimentos humanos: não ilusória, mas realista, do realismo da fé que vê o invisível. Esta esperança é uma espera paciente, como a não visão de Abraão. Gosto de recordar aquele grande crente visionário que foi Joaquim de Fiore, o abade calabrês “dotado de espírito profético” [2], segundo Dante Alighieri: numa época de lutas sangrentas, conflitos entre o Papado e o Império, Cruzadas, heresias e mundanização da Igreja, ele soube apontar o ideal de um novo espírito de convivência entre os homens, marcado pela fraternidade universal e pela paz cristã, fruto do Evangelho vivido. Foi este espírito de amizade social e de fraternidade universal que propus na Fratelli tutti. E esta harmonia entre os homens deve estender-se também à criação, a partir de um “antropocentrismo situado” (cf. Laudate Deum, 67), na responsabilidade por uma ecologia humana e integral, caminho de salvação da nossa casa comum e dos que nela vivemos.

4. Por que há tanto mal no mundo? Porquê tanta injustiça, tantas guerras fratricidas que provocam a morte de crianças, destroem cidades, poluem o ambiente em que vive o homem, a mãe terra, violada e devastada? Referindo-se implicitamente ao pecado de Adão, São Paulo diz: «Bem sabemos como toda a criação geme e sofre as dores de parto até ao presente» (Rm 8, 22). A luta moral dos cristãos está ligada ao “gemido” da criação, porque ela «foi sujeita à destruição» (v. 20). Todo o cosmos e cada criatura gemem e anseiam “impacientemente”, para que a condição atual possa ser superada e a original restabelecida: efetivamente, a libertação do homem implica também a das outras criaturas que, solidárias com a condição humana, foram colocadas sob o jugo da escravidão. Tal como a humanidade, a criação – sem culpa sua – é escrava e vê-se incapaz de fazer aquilo para que foi concebida, isto é, ter um significado e um propósito duradouros; está sujeita à dissolução e à morte, agravadas pelos abusos humanos sobre a natureza. Mas, em sentido contrário, a salvação do homem em Cristo é esperança segura inclusive para a criação: com efeito, «também ela será libertada da escravidão da corrupção, para alcançar a liberdade na glória dos filhos de Deus» (Rm 8, 21). Portanto, na redenção de Cristo, é possível contemplar na esperança o vínculo de solidariedade entre o ser humano e todas as outras criaturas.


5. Na esperançosa e perseverante espera do regresso glorioso de Jesus, o Espírito Santo mantém vigilante a comunidade dos fiéis e instrui-a continuamente, chamando-a à conversão dos estilos de vida, a resistir à degradação humana do meio ambiente e a manifestar aquela crítica social que é, em primeiro lugar, testemunho da possibilidade de mudança. Esta conversão consiste em passar da arrogância de quem quer dominar os outros e a natureza – reduzida a um mero objeto manipulável – à humildade de quem cuida dos outros e da criação. «Um ser humano que pretenda tomar o lugar de Deus torna-se o pior perigo para si mesmo» (Laudate Deum, 73), porque o pecado de Adão destruiu as relações fundamentais da vida do homem: a relação com Deus, consigo mesmo, com os outros seres humanos, e a relação com o cosmos. Todas estas relações devem ser, sinergicamente, restauradas, salvas, “corrigidas”. Não pode faltar nenhuma. Se faltar uma, falha tudo.

6. Esperar e agir com a criação significa, antes de mais, unir forças e, caminhando juntamente com todos os homens e mulheres de boa vontade, ajudar a «repensar a questão do poder humano, do seu significado e dos seus limites. Com efeito, o nosso poder aumentou freneticamente em poucas décadas. Realizamos progressos tecnológicos impressionantes e surpreendentes, sem nos darmos conta, ao mesmo tempo, que nos tornámos altamente perigosos, capazes de pôr em perigo a vida de muitos seres e a nossa própria sobrevivência» (Laudate Deum, 28). Um poder descontrolado gera monstros e volta-se contra nós mesmos. Por isso, hoje, é urgente colocar limites éticos ao desenvolvimento da inteligência artificial, que com a sua capacidade de cálculo e de simulação poderia ser utilizada para dominar o homem e a natureza, em vez de estar ao serviço da paz e do desenvolvimento integral (cf. Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2024).

7. «O Espírito Santo acompanha-nos na vida»: assim o compreenderam as crianças reunidas na Praça de São Pedro para a sua primeira Jornada Mundial, que coincidiu com o Domingo da Santíssima Trindade. Deus não é uma ideia abstrata de infinito, mas é Pai amoroso, Filho amigo e redentor de todo o homem, e Espírito Santo que guia os nossos passos no caminho da caridade. A obediência ao Espírito de amor muda radicalmente a atitude do homem: passa de “predador” a “cultivador” do jardim. A terra está confiada ao homem, mas continua a ser de Deus (cf. Lv 25, 23). Este é o antropocentrismo teológico da tradição judaico-cristã. Por isso, pretender possuir e dominar a natureza, manipulando-a a seu bel-prazer, é uma forma de idolatria. É o homem prometeico, embriagado com o seu próprio poder tecnocrático, que com arrogância coloca a terra numa condição de “des-graça”, isto é, privada da graça de Deus. Ora, se a graça de Deus é Jesus, morto e ressuscitado, então é verdade o que Bento XVI disse: «Não é a ciência que redime o homem. O homem é redimido pelo amor» (Carta Encíclica Spe Salvi, 26), o amor de Deus em Cristo, do qual nada nem ninguém nos pode separar (cf. Rm 8, 38-39). Continuamente atraída pelo seu futuro, a criação não é estática nem está fechada em si mesma. Hoje, graças também às descobertas da física contemporânea, a ligação entre matéria e espírito é cada vez mais fascinante para o nosso conhecimento.

8. Por conseguinte, a salvaguarda da criação não é apenas uma questão ética, mas é eminentemente teológica: na realidade, diz respeito ao entrelaçamento entre o mistério do homem e o mistério de Deus. Este entrelaçamento pode dizer-se que é “generativo”, na medida em que remete para o ato de amor com que Deus cria o ser humano em Cristo. Este ato criador de Deus confere e funda o livre agir do homem e toda a sua dimensão ética: livre precisamente por ter sido criado na imagem de Deus que é Jesus Cristo; e, por isso, “representante” da criação no próprio Cristo. Há uma motivação transcendente (teológico-ética) que compromete o cristão a promover a justiça e a paz no mundo, também através do destino universal dos bens: é a revelação dos filhos de Deus que a criação espera, gemendo como se estivesse com as dores do parto. Nesta história, não está em jogo apenas a vida terrena do homem, está sobretudo em jogo o seu destino na eternidade, o eschaton da nossa bem-aventurança, o Paraíso da nossa paz, em Cristo Senhor do cosmos, o Crucificado-Ressuscitado por amor.

9. Esperar e agir com a criação significa, então, viver uma fé encarnada, que sabe entrar na carne sofredora e esperançosa das pessoas, partilhando a expectativa da ressurreição corporal a que os fiéis estão predestinados em Cristo Senhor. Em Jesus, o Filho eterno na carne humana, somos verdadeiramente filhos do Pai. Pela fé e pelo batismo, começa para o cristão a vida segundo o Espírito (cf. Rm 8, 2), uma vida santa, uma existência como filhos do Pai, à semelhança de Jesus (cf. Rm 8, 14-17), visto que, pela força do Espírito Santo, Cristo vive em nós (cf. Gl 2, 20). Uma vida que se torna um cântico de amor para Deus, para a humanidade, com e para a criação, e que encontra a sua plenitude na santidade[3].

Roma, São João de Latrão, 27 de junho de 2024.

FRANCISCO

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

OUVIR A VOZ DA CRIAÇÃO

Que o tema deste ano, "Ouvir a voz da criação", possa favorecer em todos um compromisso concreto para cuidar da nossa casa comum. À mercê de nossos excessos consumistas, a irmã mãe Terra geme e implora que paremos com nossos abusos e sua destruição. #TempodaCriação

Papa Francisco

TEMPO DE ORAÇÃO PELO CUIDADO DA CRIAÇÃO

"A criação de Deus precisa de ti, do teu olhar amoroso, da tua atenção renovada para que a sua fecundidade não seja aniquilada. Como é a tua relação com a criação de Deus? Como é o teu olhar sobre a natureza e os seus dons? "

DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO PELO CUIDADO DA CRIAÇÃO

Hoje é dia um de setembro, quinta-feira da vigésima segunda semana do Tempo Comum e Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação.

Toma consciência daquilo que te rodeia,
bom e mau..., alegre e triste... ou, talvez, indiferente...
É aí que Deus te quer falar, hoje.
É aí que tu podes falar com Ele.
Procura que as circunstâncias não te distraiam do essencial:
Deus vem ao teu encontro.
Deixa-te encontrar pelo Senhor.
Deixa que a sua presença seja fonte de paz e alegria para ti.
Pede-lhe a graça de seres fonte de paz e alegria
para aqueles que vivem contigo...
e começa assim a tua oração.

Escuta esta passagem do Evangelho segundo São Lucas. 

Ev Lc 5, 1-11

A multidão estava aglomerada em volta de Jesus,
para ouvir a palavra de Deus. 
Ele encontrava-se na margem do lago de Genesaré
e viu dois barcos estacionados no lago.
Os pescadores tinham deixado os barcos e estavam a lavar as redes.
Jesus subiu para um barco, que era de Simão,
e pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra.
Depois sentou-se e do barco pôs-se a ensinar a multidão.
Quando acabou de falar, disse a Simão:
«Faz-te ao largo e lançai as redes para a pesca».
Respondeu-lhe Simão:
«Mestre, andámos na faina toda a noite e não apanhámos nada.
Mas, já que o dizes, lançarei as redes».
Eles assim fizeram
e apanharam tão grande quantidade de peixes
que as redes começavam a romper-se.
Fizeram sinal aos companheiros que estavam no outro barco
para os virem ajudar;
eles vieram e encheram ambos os barcos
de tal modo que quase se afundavam.
Ao ver o sucedido,
Simão Pedro lançou-se aos pés de Jesus e disse-lhe:
«Senhor, afasta-te de mim, que sou um homem pecador».
Na verdade, o temor tinha-se apoderado dele e de todos os seus companheiros,
por causa da pesca realizada.
Isto mesmo sucedeu a Tiago e a João, filhos de Zebedeu,
que eram companheiros de Simão.
Jesus disse a Simão:
«Não temas. Daqui em diante serás pescador de homens».
Tendo conduzido os barcos para terra,
eles deixaram tudo e seguiram Jesus. 

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO PELO CUIDADO DA CRIAÇÃO

Hoje celebramos o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação. #RezemosJuntos com os irmãos e irmãs de diversas confissões cristãs e trabalhemos pela nossa casa comum, nesta época de grave crise planetária. #TempoDaCriação
Papa Francisco

terça-feira, 1 de setembro de 2020

MENSAGEM DE SUA SANTIDADE PAPA FRANCISCO

PARA A CELEBRAÇÃO DO
DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO PELO CUIDADO DA CRIAÇÃO
1 de setembro de 2020

«Santificareis o quinquagésimo ano, proclamando na vossa terra a liberdade
de todos os que a habitam. Este ano será para vós um Jubileu» (Lv 25, 10).


Queridos irmãos e irmãs,

Anualmente, sobretudo desde a publicação da carta encíclica Laudato si’ (24/V/2015; daqui em diante, citada com a sigla LS), o primeiro dia de setembro assinala, para a família cristã, o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação; e com ele se abre o Tempo da Criação que conclui no dia 4 de outubro, memória de São Francisco de Assis. Durante este período, os cristãos renovam em todo o mundo a fé em Deus criador e unem-se de maneira especial na oração e na ação pela preservação da casa comum.

Alegro-me com o tema escolhido pela família ecuménica para a celebração do Tempo da Criação 2020, ou seja, um «Jubileu pela Terra», tendo em vista que se celebra precisamente este ano o quinquagésimo aniversário do Dia da Terra.

Na Sagrada Escritura, o Jubileu é um tempo sagrado para recordar, regressar, repousar, restaurar e rejubilar.

1. Um tempo para recordar

Somos convidados a lembrar sobretudo que o destino último da criação é entrar no «sábado eterno» de Deus. É uma viagem que se realiza no tempo, abraçando o ritmo dos sete dias da semana, o ciclo dos sete anos e o grande Ano Jubilar que sobrevém ao concluírem-se os sete anos sabáticos.

Depois o Jubileu é um tempo de graça para recordar a vocação primordial da criação: ser e prosperar como comunidade de amor. Existimos apenas graças às relações com Deus criador, com os irmãos e irmãs enquanto membros duma família comum e com todas as criaturas que habitam na mesma casa que nós. «Tudo está relacionado, e todos nós, seres humanos, caminhamos juntos como irmãos e irmãs numa peregrinação maravilhosa, entrelaçados pelo amor que Deus tem a cada uma das suas criaturas e que nos une também, com terna afeição, ao irmão sol, à irmã lua, ao irmão rio e à mãe terra» (LS, 92).

Por isso o Jubileu é um tempo para a recordação, repassando na memória a nossa existência inter-relacional. Temos necessidade constante de nos lembrar que «tudo está inter-relacionado e o cuidado autêntico da nossa própria vida e das nossas relações com a natureza é inseparável da fraternidade, da justiça e da fidelidade aos outros» (LS, 70).

2. Um tempo para regressar

O Jubileu é um tempo para voltar atrás e arrepender-se. Quebramos os laços que nos uniam ao Criador, aos outros seres humanos e ao resto da criação. Precisamos de sarar estas relações danificadas, que são essenciais para sustentáculo de nós mesmos e de toda a trama da vida.

O Jubileu é um tempo de regresso a Deus, nosso criador amoroso. Não é possível viver em harmonia com a criação, sem estar em paz com o Criador, fonte e origem de todas as coisas. Como observou o Papa Bento XVI, «o consumo brutal da criação começa lá onde Deus não está, onde a matéria já é somente material para nós, onde nós mesmos somos a última instância, onde o conjunto é simplesmente nossa propriedade» (Encontro com o Clero da diocese de Bolzano-Bressanone, 06/VIII/2008).

O Jubileu convida-nos a pensar novamente nos outros, especialmente nos pobres e nos mais vulneráveis. Somos chamados a acolher de novo o plano primordial e amoroso de Deus para a criação como uma herança comum, um banquete que deve ser partilhado com todos os irmãos e irmãs em espírito de convivialidade; não numa competição desatinada, mas numa comunhão jubilosa, onde nos apoiamos e protegemos mutuamente. O Jubileu é um tempo para dar liberdade aos oprimidos e a quantos estão acorrentados aos grilhões das várias formas de escravidão moderna, nomeadamente o tráfico de pessoas e o trabalho infantil.

Além disso precisamos de voltar a ouvir a terra, expressa na Sagrada Escritura pelo termo adamah, o lugar donde foi tirado Adam, o homem. Hoje, a voz da criação incita-nos, alarmada, a regressar ao lugar certo na ordem natural, lembrando-nos que somos parte, não patrões, da rede interligada da vida. A desintegração da biodiversidade, o aumento vertiginoso de catástrofes climáticas, o impacto desproporcionado que tem a pandemia atual sobre os mais pobres e frágeis são sinais de alarme perante a avidez desenfreada do consumo.

De modo particular durante este Tempo da Criação, ouçamos o pulsar da criação. Com efeito, esta nasceu para manifestar e comunicar a glória de Deus, para nos ajudar a encontrar na sua beleza o Senhor de todas as coisas e regressar a Ele (cf. São Boaventura, In II Sent., I, 2,2, q. 1, concl; Brevil., II, 5.11). Por isso, a terra da qual fomos tirados é lugar de oração e meditação: «despertemos o sentido estético e contemplativo que Deus colocou em nós» (Francisco, Exort. ap. Querida Amazonia, 56). A capacidade de contemplar e nos maravilharmos é algo que podemos aprender especialmente dos irmãos e irmãs indígenas, que vivem em harmonia com a terra e as suas variadas formas de vida.

3. Um tempo para repousar

Deus, na sua sabedoria, reservou o dia de sábado para que a terra e os seus habitantes pudessem descansar e restaurar-se. Hoje, porém, os nossos estilos de vida forçam o planeta para além dos seus limites. A procura contínua de crescimento e o ciclo incessante da produção e do consumo estão a extenuar o ambiente. As florestas dissipam-se, o solo torna-se erosivo, os campos desaparecem, os desertos avançam, os mares tornam-se ácidos e as tempestades intensificam-se: a criação geme!

Durante o Jubileu, o Povo de Deus era convidado a repousar dos seus trabalhos habituais, para deixar – graças à diminuição do consumo habitual – que a terra se regenerasse e o mundo reentrasse na ordem. Hoje precisamos de encontrar estilos de vida équos e sustentáveis, que restituam à Terra o repouso que lhe cabe, vias de subsistência suficientes para todos, sem destruir os ecossistemas que nos sustentam.

De algum modo a pandemia atual levou-nos a redescobrir estilos de vida mais simples e sustentáveis. A crise deu-nos, em certo sentido, a possibilidade de desenvolver novas maneiras de viver. Foi possível constatar como a Terra consegue recuperar, se a deixarmos descansar: o ar tornou-se mais puro, as águas mais transparentes, as espécies animais voltaram para muitos lugares donde tinham desaparecido. A pandemia levou-nos a uma encruzilhada. Devemos aproveitar este momento decisivo para acabar com atividades e objetivos supérfluos e destrutivos, e cultivar valores, vínculos e projetos criadores. Devemos examinar os nossos hábitos no uso da energia, no consumo, nos transportes e na alimentação. Devemos retirar, das nossas economias, aspetos não essenciais e nocivos, e criar modalidades vantajosas de comércio, produção e transporte dos bens.

4. Um tempo para restaurar

O Jubileu é um tempo para restaurar a harmonia primordial da criação e para curar relações humanas comprometidas.

Convida a restabelecer relações sociais equitativas, restituindo a cada um a sua liberdade e os bens próprios, e perdoando as dívidas dos outros. Por isso não devemos esquecer a história de exploração do Sul do planeta, que provocou um enorme deficit ecológico, devido principalmente à depredação dos recursos e ao uso excessivo do espaço ambiental comum para a eliminação dos resíduos. É o tempo duma justiça reparadora. A este respeito, renovo o meu apelo para se cancelar a dívida dos países mais frágeis, à luz do grave impacto das crises sanitárias, sociais e económicas que aqueles têm de enfrentar na sequência do vírus Covid-19. É necessário ainda assegurar que os incentivos para a recuperação, em fase de elaboração e implementação a nível mundial, regional e nacional, se tornem realmente eficazes mediante políticas, legislações e investimentos centrados no bem comum e com a garantia de se alcançar os objetivos sociais e ambientais globais.

De igual modo é preciso restaurar a terra. O restabelecimento dum equilíbrio climático é extremamente importante, vista a urgência em que nos encontramos. Estamos a ficar sem tempo, como nos lembram os nossos filhos e os jovens. Tem-se de fazer todo o possível para manter o aumento da temperatura média global abaixo do limite de 1,5 graus centígrados, como ficou consagrado no Acordo de Paris sobre o Clima: ultrapassar tal limite revelar-se-á catastrófico, sobretudo para as comunidades mais pobres em todo o mundo. Neste momento crítico, é necessário promover uma solidariedade intra e intergeracional. Como preparação para a importante Cimeira do Clima em Glasgow, no Reino Unido (COP 26), convido cada país a adotar metas nacionais mais ambiciosas para reduzir as emissões.

O restabelecimento da biodiversidade é igualmente crucial no contexto duma extinção de espécies e uma degradação dos ecossistemas sem precedentes. É necessário apoiar o apelo das Nações Unidas para preservar 30% da Terra como habitat protegido até 2030, a fim de conter a taxa alarmante de perda da biodiversidade. Exorto a comunidade internacional a colaborar para garantir que a Cimeira sobre a Biodiversidade (COP 15) de Kunming, na China, constitua um ponto de viragem no sentido do restabelecimento da Terra como casa onde, segundo a vontade do Criador, a vida seja abundante.

Somos obrigados a reparar segundo justiça, garantindo, a quantos habitaram uma terra durante gerações, que possam recuperar plenamente a sua utilização. É preciso proteger as comunidades indígenas de empresas, particularmente multinacionais, que, com a extração perniciosa de combustíveis fósseis, minerais, madeira e produtos agroindustriais, «fazem nos países menos desenvolvidos aquilo que não podem fazer nos países que lhes dão o capital» (LS, 51). Esta má conduta das empresas representa um «novo tipo de colonialismo» (São João Paulo II, Discurso à Academia Pontifícia das Ciências Sociais, 27/IV/2001, citado na Exort. ap. Querida Amazonia, 14), que explora vergonhosamente comunidades e países mais pobres a braços com uma busca desesperada de desenvolvimento económico. É necessário consolidar as legislações nacionais e internacionais, para que regulamentem as atividades das empresas extrativas e garantam o acesso à justiça aos prejudicados.

5. Um tempo para rejubilar

Na tradição bíblica, o Jubileu constitui um acontecimento festivo, inaugurado por um som de tromba que ressoa por toda a terra. Sabemos que o clamor da Terra e dos pobres se tornou, nos anos passados, ainda mais rumoroso. Simultaneamente somos testemunhas do modo como o Espírito Santo está inspirando por todo o lado indivíduos e comunidades a unirem-se para reconstruir a casa comum e defender os mais vulneráveis. Assistimos ao surgimento gradual duma grande mobilização de pessoas que, partindo de baixo e das periferias, se estão empenhando generosamente em prol da proteção da terra e dos pobres. É uma alegria ver tantos jovens e comunidades, especialmente indígenas, na linha da frente para dar resposta à crise ecológica. Apelam por um Jubileu da Terra e um novo começo, cientes de que «as coisas podem mudar» (LS, 13).

Temos ainda motivo para nos alegrar quando constatamos como o Ano especial de aniversário da Laudato si' está a inspirar numerosas iniciativas a nível local e global em prol do cuidado da casa comum e dos pobres. Este ano deveria levar a planos operacionais de longo prazo, para chegar a haver uma ecologia integral nas famílias, paróquias, dioceses, ordens religiosas, escolas, universidades, cuidados da saúde, empresas, fazendas agrícolas e em muitas outras áreas.

Regozijamo-nos também com as comunidades de crentes que se estão dando as mãos para criar um mundo mais justo, pacífico e sustentável. É motivo de particular alegria que o Tempo da Criação se esteja a tornar uma iniciativa verdadeiramente ecuménica. Continuemos a crescer na consciência de que todos moramos numa casa comum enquanto membros da mesma família!

Alegremo-nos porque o Criador, no seu amor, sustenta os nossos humildes esforços em prol da Terra. Esta é também a casa de Deus, onde a sua Palavra «Se fez carne e veio habitar connosco» (Jo 1, 14), o lugar que a efusão do Espírito Santo renova sem cessar.

«Enviai, Senhor, o vosso Espírito e renovai a face da terra» (cf. Sal 104/103, 30).

Roma, em São João de Latrão, 1 de setembro de 2020.

Francisco

ORAÇÃO PELA NOSSA TERRA

Deus Omnipotente,
que estais presente em todo o universo
e na mais pequenina das vossas criaturas,
Vós que envolveis com a vossa ternura
tudo o que existe,
derramai em nós a força do vosso amor
para cuidarmos da vida e da beleza.
Inundai-nos de paz,
para que vivamos como irmãos e irmãs
sem prejudicar ninguém.
Ó Deus dos pobres,
ajudai-nos a resgatar
os abandonados e esquecidos desta terra
que valem tanto aos vossos olhos.
Curai a nossa vida,
para que protejamos o mundo
e não o depredemos,
para que semeemos beleza
e não poluição nem destruição.
Tocai os corações
daqueles que buscam apenas benefícios
à custa dos pobres e da terra.
Ensinai-nos a descobrir o valor de cada coisa,
a contemplar com encanto,
a reconhecer que estamos profundamente unidos
com todas as criaturas
no nosso caminho para a vossa luz infinita.
Obrigado porque estais connosco todos os dias.
Sustentai-nos, por favor, na nossa luta
pela justiça, o amor e a paz.

DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO PELO CUIDADO DA CRIAÇÃO

Começa hoje um tempo especial dedicado à criação, até 4 de Outubro, festa de São Francisco de Assis, com o Dia de Oração pelo Cuidado com a Criação.
“Rezemos para que os recursos do planeta não sejam saqueados, mas partilhados de forma justa e respeitosa. Não ao saque, sim à partilha”, pediu o Papa Francisco n‘O Vídeo do Papa’, com a intenção de oração para o mês de Setembro.

https://agencia.ecclesia.pt/portal/video-do-papa-francisco-pede-que-os-recursos-do-planeta-nao-sejam-saqueados-mas-partilhados/

domingo, 1 de setembro de 2019

DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO PELO CUIDADO DA CRIAÇÃO

Celebra-se a 1 de setembro, pelo quinto ano consecutivo, o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação. Este ano, o tema é 'A rede da vida'. Neste domingo, somos convidados pelo Santo Padre a recordar que devemos todos contribuir para ultrapassar a atual crise ecológica.

Este ano, Francisco destaca, na intenção de oração de setembro, o compromisso com a proteção dos oceanos. Como refere na encíclica Laudato Si', "os oceanos contêm não só a maior parte da água do planeta, mas também a maior parte da vasta variedade dos seres vivos", alimentando grande parte da população mundial. A "extração descontrolada" de espécies marinhas para consumo humano provoca "drásticas diminuições de algumas espécies".

O Santo Padre convida "os políticos, os cientistas e os economistas" a "trabalharem juntos", agindo interdisciplinarmente e de forma sustentável e integrada, não descorando a dimensão humana da problemática.

Também a Comissão Episcopal de Pastoral Social e Mobilidade Humana convida todas as comunidades cristãs a "dar graças a Deus pela Criação", pedindo a Deus a conversão dos "corações daqueles de quem dependem as efetivas mudanças nas políticas públicas" que causam a degradação ambiental.
(...)
https://redemundialdeoracaodopapa.pt/atualidade/619

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Ecologia: Papa propõe «15ª obra de misericórdia», cuidar da natureza

O Papa afirmou que o cuidado com o Ambiente deve ser visto pelos cristãos como uma “nova obra de misericórdia”, que se une as 14 tradicionais, para defender a “vida humana na sua totalidade”.

“Tomo a liberdade de propor um complemento aos dois elencos de sete obras de misericórdia [corporais e espirituais], acrescentando a cada um o cuidado da casa comum.

Francisco precisa que, como obra de misericórdia espiritual, o cuidado da casa comum requer “a grata contemplação do mundo”.

Como obra de misericórdia corporal, o cuidado da casa comum requer os “simples gestos quotidianos” que permitem quebrar “a lógica da violência, da exploração, do egoísmo”.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

1 de Setembro – Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação

A MONTANHA

Eu vou seguir uma luz lá no alto
Eu vou ouvir uma voz que me chama
Eu vou subir a montanha e ficar
Bem mais perto de Deus e rezar

Eu vou gritar para o mundo me ouvir e acompanhar
Toda a minha escalada e ajudar
A mostrar como é
O meu grito de amor e de fé

Eu vou pedir que as estrelas não parem de brilhar
E as crianças não deixem de sorrir
E que os homens jamais
Se esqueçam de agradecer

Por isso eu digo
Obrigado, Senhor, por mais um dia
Obrigado, Senhor, que eu posso ver
Que seria de mim
Sem a fé que eu tenho em Você?

Por mais que eu sofra
Obrigado, Senhor, mesmo que eu chore
Obrigado, Senhor, por eu saber
Que tudo isso me mostra
O caminho que leva a Você

Mais uma vez
Obrigado, Senhor, por outro dia
Obrigado, Senhor, que o sol nasceu
Obrigado, Senhor
Agradeço, obrigado, Senhor

Por isso eu digo
Obrigado, Senhor, pelas estrelas
Obrigado, Senhor, pelo sorriso
Obrigado, Senhor
Agradeço, obrigado, Senhor

Mais uma vez
Obrigado, Senhor, por um novo dia
Obrigado, Senhor, pela esperança
Obrigado, Senhor
Agradeço, obrigado, Senhor

Por isso eu digo
Obrigado, Senhor, pelo sorriso
Obrigado, senhor, pelo perdão
Obrigado, Senhor
Agradeço, obrigado, Senhor

Mais uma vez
Obrigado, senhor, pela natureza
Obrigado, Senhor, por tudo isso
Obrigado, Senhor
Agradeço, obrigado, Senhor

Erasmo Carlos
Roberto Carlos

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

01 de setembro - Dia Mundial de Oração pelo cuidado da Criação

Oração cristã com a criação

Nós Vos louvamos, Pai,
com todas as vossas criaturas,
que saíram da vossa mão poderosa.
São vossas e estão repletas da vossa presença
e da vossa ternura.
Louvado sejais!

Filho de Deus, Jesus,
por Vós foram criadas todas as coisas.
Fostes formado no seio materno de Maria,
fizestes-Vos parte desta terra,
e contemplastes este mundo
com olhos humanos.
Hoje estais vivo em cada criatura
com a vossa glória de ressuscitado.
Louvado sejais!

Espírito Santo, que, com a vossa luz,
guiais este mundo para o amor do Pai
e acompanhais o gemido da criação,
Vós viveis também nos nossos corações
a fim de nos impelir para o bem.
Louvado sejais!

Senhor Deus, Uno e Trino,
comunidade estupenda de amor infinito,
ensinai-nos a contemplar-Vos
na beleza do universo,
onde tudo nos fala de Vós.
Despertai o nosso louvor e a nossa gratidão
por cada ser que criastes.
Dai-nos a graça de nos sentirmos
intimamente unidos
a tudo o que existe.
Deus de amor,
mostrai-nos o nosso lugar neste mundo
como instrumentos do vosso carinho
por todos os seres desta terra,
porque nem um deles sequer
é esquecido por Vós.
Iluminai os donos do poder e do dinheiro
para que não caiam no pecado da indiferença,
amem o bem comum, promovam os fracos,
e cuidem deste mundo que habitamos.
Os pobres e a terra estão bradando:
Senhor, tomai-nos
sob o vosso poder e a vossa luz,
para proteger cada vida,
para preparar um futuro melhor,
para que venha o vosso Reino
de justiça, paz, amor e beleza.
Louvado sejais!
Amen.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO PELO CUIDADO DA CRIAÇÃO

“Na próxima terça-feira, 1 de setembro, vai celebrar-se a Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação. Em comunhão de oração com os nossos irmãos ortodoxos e com todas as pessoas de boa vontade, queremos oferecer o nosso contributo para a superação da crise ecológica que a humanidade está a viver." Papa Francisco
Fotos: Conceição Rocha