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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O REGRESSO DA MISSÃO

Já demos conta do regresso da Rafaela, que terminou a sua missão de voluntariado em S. Tomé. Durante os três meses que ali permaneceu foi-nos contando a sua experiência e a riqueza que ela lhe estava a proporcionar. Agora, em jeito de "balanço" e com a distância que a separa da realidade vivida, escreve mais uma crónica que partilha com todos nós.
 
Após mais de uma semana em Portugal, encerro o capítulo Paróquia de Neves – Setembro a Dezembro de 2010.
 
É lindo, olhar para trás e ver três meses de gratuidade, crescimento, familiaridade, carinho, entrega, coragem, fé, desprendimento… felicidade. Em São Tomé fui feliz, e trouxe para casa a mesma felicidade que lá vivi, por um motivo muito simples, a aprendizagem. 
No olhar simples encontrei as respostas que precisava.  Os últimos dias em Lembá, foram muito intensos… de domingo a sexta feira (dia da minha partida) dormi em média duas horas por noite, duas delas fiz directas… para poder deixar a exposição dos trabalhos dos meus diabretes pronta…
Na terça feira, fiz a árvore de natal com os diabretes, com as estrelas de pacotes de leite… e um grande sorriso da parte deles e, um maior da minha parte… grande árvore de natal. Linda! Foi ainda a festa de natal do lar de idosos… e o giro é o pós festa. O almoço… os bolos… dos “organizadores e colaboradores”… que, do qual não fazia parte, mas também comi, e ri-me, e diverti-me… e levei com um “ché, já vais!”
 
Na quarta feira as irmãs, doces como sempre, foram passear comigo, numa ultima visita à ilha… Cascata Bombaim, Cascata São Nicolau, Jardim Botânico Obô, Club Santana, Boca do Inferno, Água Izé, Trindade, … tantos outros sítios… que as Irmãs, de jeito a bom anfitrião, fazem o seu papel de mostrar a casa, na despedida.
Na quinta-feira… bem a minha despedida dos meus diabretes, foi leva-los a ver a exposição dos seus trabalhos: o presépio (de papel e trapos), a lagarta de plasticina, o postal do Dia da Mãe (a 08 de Dezembro… como antigamente), o postal de Natal e o anjo…. Bem o rosto deles… tudo disse. Receberam um beijito e um postal de despedida… e um adeus. Bem… eles perceberam e, eu também!
 
Despedi-me de todos, gradualmente e muito “soft”, foi engraçado… da Irmã Rita, um doce de pessoa… muitos doces me deu ou mandava… e no ultimo cafezito… mais uma saquita de biscoitos de mel! A despedida das Irmãs da Paróquia de Neves, da Patrícia, da Ana, da Petiza, da Beth, da Josseline, da Kátia… foi complicada! De algumas… e alguns… nem houve despedida. É difícil partir de Portugal…
 mas mais difícil foi partir de Lembá!
Aquando da minha partida para a Missão das Neves… nada esperava, nada ansiava, nada deixava, partia simplesmente num acto de humildade e entrega. Nunca contava que aprendesse tanto, e muito menos, recebesse tanto.
 
Nunca cheguei ao fundo do poço, como se costuma dizer, mas não estava feliz nem segura…. É impressionante como esta paragem me deu novo fôlego.
Esta missão foi uma pausa a uma “Rafaela” para um recomeço de uma “RAFAELA”. Aquelas árvores gigantes fizeram-me perceber a pequenez em que vivia. A falta de água ou energia eléctrica, fez-me ver que tudo tinha e nada usufruía.
Como a minha música preferida: Dream on girl “Come back to see the day - Volta para veres o dia You lost your heart and all your hopes- que perdeste o teu coraçao todas as tuas esperancas I'll take you to see the sunrise - Eu levar-te-ei para veres o nascer do sol And try to catch your ghost - e tentar apanhar o teu fantasma ” Eu sonhei e regressei aos dias em que perdi a esperança e, alguém me levou a ver o pôr do sol ( e que lindo pôr do sol!) e ajudou-me a apanhar todos os meus fantasmas. Fantasmas, que eram (e são) tantos… mas que vinham sob a forma de mágoas, dores e perdas que transformei em marcas, aprendizagens e força. Todas as cicatrizes tornaram-se troféus, para que olhe para as mesmos e, me lembre que sou muito mais em Cristo. Trouxe amigos, trouxe prendas, trouxe a essência de Lembá em mim… se aquando da minha viagem para São Tomé pensava no que estava a deixar para trás… a minha família e as perdas que tivera. Aquando da minha viagem de regresso, para além de dormir (e como dormi!), esboçava um sorriso, a cada pensamento, a cada lembrança, a cada momento que me vinha à memória da minha passagem por São Tomé. Tantas pessoas, tanto carinho, tanto cuidado…. Tanto amor (arrisco! Ouso dizer!)
Na terra da escravidão, fiquei livre. Na terra do nada, recuperei tudo. Na terra de São Tomé,… regressei. Readapto-me ao frio…. Depois do meu mais longo verão - tempo de calor, praia, férias, paixão e aventura - sou livre. Parti dorida, alegrezita, confiantezita, despojada, sem grande interesse por nada… Nesta quadra, particularmente difícil, mas de esperança e fé, cheguei a Portugal… alegre… Regressei feliz, completa, confiante, humilde e apaixonada. Recuperei a paixão. Como alguém me dizia: “ Ao partires por dois meses para ajudares os outros, significa que não te importas comigo!”… tinha razão… essa importância era demasiado pequena para aquilo que eu iria a vir descobrir e encontrar. 
Estes três meses, foram uma prova de amor perante aqueles que realmente gostam e se importam para comigo, todos os laços foram fortalecidos. Nas minhas orações estarão todos aqueles que comigo estiveram durante esta missão, de São Tomé a Portugal, de Neves a Vilar do Paraíso, a minha gratidão estendesse a uma simples oração. Desejo que Deus ilumine os caminhos de cada um dos que comigo estiveram, já que sou uma afortunada… pois o meu caminho é iluminado por uma linda estrela. A minha estrela. Sou eu. A viver o meu Natal. O Natal da minha família. O nosso Natal. Mesmo com aqueles que estão longe. Estarão sempre perto. O Natal… esperança… a minha estrela brilha. Sou eu. Feliz. Eu, a de sempre… mas com esperança e livre. Uma missão, uma pausa, uma separação transformada numa pessoa de Amor. Afinal sabia o que precisava. Precisava de… encontrar-me… de encontrar a minha fé.
Encerro a Missão Neves Setembro/Dezembro 2010, com grande saudade e carinho! Beijito. Chauê, migú múm!

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A ÚLTIMA MENSAGEM EM SÃO TOMÉ

Bem amigos, estes últimos dias tem sido de trabalho… e muito trabalho! Não há praia nem passeio, pois tem chovido torrencial e diariamente… além de não ter tempo é perigoso com as derrocadas e inundações! Contudo a vidita corre e bem.
 
Fiz a minha primeira experiência a andar de transportes públicos! Uma Toyota Hiace, anterior aos anos 80, de nove lugares, 15 pessoas lá dentro, um porco gigante, bacias de peixe… 28 km… 45 minutos… e, por Amor da Santa, parece a montanha russa…. Cada susto! Mas engraçado, “branca” vai à frente, ou vai no banco de trás só com duas ou três pessoas… não vai “amontoada”! As minhas idas à capital agora, hum… já acontecem porque vou de “hiace”. Ora vou almoçar com os leigos, ora vou aos correios, ou tomar café… como dizem, ninguém sai de São Tomé sem a experiência “iáce”.
 
Fiz um retiro com o grupo de Crisma (o 3º ano) em Monteforte e depois viemos a pé… bem, é perto! Uma hora… a andar… eu explico, apanham-me mais uma vez no fim da missa e convidam-me para ir… depois venho a pé… Santa Mãe!

Faz-se bem… conversa-se, vêem-se arvores gigantes… pelos campo fora…Mãe Santa, até ela espanta! A minha catequese, essa, cresce… parecem cogumelos… aparecem todos os sábados, novos Catequizandos.

Bem o engraçado, é que começam a despedir-se; ora aparecem na escola para saber quando vou embora, ora, abrem a discoteca para a minha despedida.

Ah! Grande noite! Bem, discoteca? É uma coisa engraçada… na qual passei parte da noite (no final de tarde) quieta, pois não sei dançar… e que danças, Santíssima! Começou às 20h30 e eram 23h00 estávamos a “correr” para casa… já era tardíssimo… Bem valeu a noite, dormiram no meu quarto, quatro meninas dóceis… foi giro… giríssimo.

Começam as festas de Natal, e na terça, fomos ao Hospital Central, entregar prendas à pediatria e passar na Cáritas para entregar prendas e levar um “Feliz Natal” a todos… bem, imaginemos, 125 crianças de 5 e 6 anos, quatro educadores, duas professoras, uma Irmã, duas brancas e uma auxiliar… seis motoristas e seis ajudantes… em… quantos carros? Vá lá!
   
Seis… eu repito SEIS hiaces (carros de nove lugares!)… conclusão vou, à frente, outra branca, o motorista e três crianças… mas a alegria deles de irem à cidade, de terem as batas com os nomes bordados nos gatos (benditos gatos!)… valeu a pena o “sacrifício” de uma hora de viagem… nestas condições. Claro, que ainda na quarta-feira, fui tomar café à cidade ( a um Salão de Chá! Santa Mãe! Que coisa…) e fui e vim de Hiace… para lá normal… 12 pessoas… para cá… viemos… ora vá, advinhem… 20 adultos, bem constituídos… e duas crianças! Bem… São Tomé na sua pureza.
 
Sábado foi uma correria! De manhã fui para Santa Catarina, mais uma vez apanhada desprevenida, para um retiro… no caminho parei… e parei… para fotos, apanhar pedras… ir a Anambó – local onde os portugueses desembarcaram pela primeira vez. Á tarde, fui à festa da Nossa Senhora da Conceição em Ponta Figo e, ainda vim à catequese… despedir-me dos meus meninos!
 
Domingo, bem…. Difícil! Ia para a praia, mas o pneu furou… e mudamos de carro… fomos no “pinchas”, um Land Cruise com mais de 20anos e uma “tecnologia” irreconhecível… de rir… a praia essa, estava má, o mar estava zangado! Estava vento… mas água quente e banhos de horas! É impressionante o “mau tempo” aqui. Grande praia. Grandes risos! Grandes amigas!
 
Quarta feira... hoje... fiz a árvore de Natal com os diabretes... que felicidade uma arvore palmeira... estrelas pintadas por eles... estrelas de papel de pacotes de leite... e um grande sorriso... a felicidade deles. Minha Santa! Depois fui à festa do lar de Idosos... ena! O final é que foi engraçado! O almoço dos trabalhadores e aproveitam para a minha despedida... Por Amor da Santa Mãe! "No Coments"! Só risos e gargalhadas!! Fotos da próxima vez! ah! Não há mais! Acabou!

 
Começo a organizar as minhas coisas… inclusive as fotos… e já vão… 4500 fotos… mas nenhuma delas retrata o que vivo, o que vejo, o que sinto… os cheiros, os sons, o calor, o suor a correr pela testa… o carinho… o “Rafaêlha!” … bem… Por Amor da Santa,…. até ela espanta! Tanto tempo… cerca de 93 dias, após a minha chegada a São Tomé… a menos de três dias da minha partida para Portugal… penso e relembro a minha vidita à 12 semanas atrás! Santa Mãe… devia estar anestesiada pela vida, pois foi tudo tão natural… a minha partida, pareceu um “ vou de autocarro até à baixa e venho já!”. Não me preocupei com nada, não preparei nada, não me despedi de ninguém, não fiz grandes planos… agora tenho consciência de que a decisão de partir, foi a melhor decisão.
A decisão mais acertada! A decisão mais difícil da minha vida, mas a mais eficaz e eficiente. As grandes decisões são, supostamente, aquelas que gastamos mais tempo a decidir, e, por consequência, vemos os prós e contras, benefícios e custos, riscos e certezas, chegamos a um impasse, e queremos e não queremos… e dizemos SIM, NÃO, SIM, NÃO… e sai um “NIM” ou um “SÃO”, pois damos uma resposta incerta….
A minha decisão foi tomada em poucos dias, a sua preparação levou 13 anos. O desejo de partir numa missão acompanha-me à muitos anos, mas só em Maio deste ano tive coragem de dar o primeiro passo – oferecer-me como voluntária – e em Junho recebo a resposta afirmativa. A 17 de Julho, oferecem-me a oportunidade de partir em Setembro para São Tomé e Príncipe; a vida corre, mas a certeza da partida está dependente da aprovação da Congregação. A 18 de Setembro fica confirmada a minha partida no dia 24… sete dias antes. Na noite anterior, à minha partida meto tudo dentro de uma mala (mala com o tamanho da que uso para transportar a roupa, apenas roupa, quando faço férias de cerca de uma semana; e para três meses, meti na mesma mala, roupa, sapatos, medicamentos, produtos de higiene, livros, toalhas… para três meses! A mala da roupa para uma semana!).
  
Parti, com a lágrima no olho, naturalmente, por deixar para trás os meus amigos, os meus irmãos, o meu sobrinho, e a minha Mãe… mas parti como se fosse ali, já naquela esquina. Sem pensar no que ficava, sem preocupação no que ia encontrar… ou no que não ia encontrar, parti livre e humilde… despojada de tudo…
Hoje, a vontade de fazer a mala é a mesma de há 12 semanas atrás: NENHUMA! Não me apetece levar nada… não preciso de nada que caiba na mala! Mas o pensar partir… essa sensação sim… é estranha.
Que me perdoem os que leem estas notas (supostamente são os que se interessam por mim!), mas a vontade de partir é de 50%. A de ficar é 50%. Tenho saudades de casa, da minha mãe, dos meus irmãos, do meu Kiko, dos meus amigos, dos meus meninos,… mas fica um trabalho completamente inacabado com estas crianças, com estes jovens, com estes adultos. Por Amor da Santa. Um trabalho inacabado em mim! São Tomé podia ser na próxima esquina de Vilar do Paraíso, não podia? “Poder, até podia! Mas não era a mesma coisa!”
Chegarei dia 17 de Dezembro às 13h de Lisboa e de São Tomé e Príncipe (têm o mesmo fuso horário!), eu, Rafaela, que parti sem nada… regresso com a mala cheia, cheia de alegria, de calor, de sol, de praia (foi o Verão mais quente e longo alguma vez vivido!)… a mala cheia de esperança, saudade, paixão e amizade! Aprendi, a viver com paixão, com gosto e, simplesmente, a viver aceitando o que tenho e sou.
Para quê falar… o que vivo, é uma experiência minha… radical… por ventura egoísta (pois abandonei tudo e todos), profunda e fascinante! Não sou completamente feliz (porque faltas tu!), nem encontrei a equação perfeita da felicidade… encontrei, sim, o meu equilíbrio, e enterrei as dores, guardei as boas recordações, aceitei as minhas insuficiências e deficiências (tantas! São tantas!), ganhei força para enfrentar as dificuldades e obstáculos, ou simplesmente aceitá-los, valorizei o que tenho e não perco
 tempo com o que perdi, enfrento a realidade! 
Sou eu, igual a mim mesma (mais gorda!), mas a Rafaela que saiu de Portugal com uma visão de que a vida podia ser melhor se…. Esses “ses”… que agora, são “sou”, “posso”, “tento”, “faço”… a vida é melhor. Basta vê-la!
Deus sempre esteve comigo, e nesta missão experimentei o seu amor e graça. É agradável saber que não sabia o quanto tinha e não dava valor, porque me faltava algo… que conhecia mas não o sabia. Faltava-me a humildade e paixão!
 
Agora sim, é a despedida de notas de São Tomé (infelizmente!), despeço-me com um “até já”! Parto… para chegar! Beijito! Chauê!
Carla Rafaela

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

"LEVI-LEVI"... A VIDA "LEVE-LEVE"

Por Rafaela Gonçalves: Quarta-feira, 24 de Novembro de 2010 às 21:09
Acabo de vir de uma missa vespertina na Roça Ponta Figo. Que paisagem… louca! Até tira a respiração. Uma capela pequenina, onde não cabem 20 pessoas, não tem sacristia… mas um tecto lindo com estrelas, portas trabalhadas… e a Nossa Senhora da Conceição como padroeira. Lembrei-me do Monte da Virgem… e das vezes que lá procurei força e inspiração para os incómodos da minha vida. Sempre achei aquela vista fenomenal e inspiradora… neste momento, perdoem-me, aquele local é minúsculo, comparado a esta Ilha de 854km2, comprimento de 65km e largura de 35km – GIGANTE!!). Fico sempre fascinada… fui a um miradouro e só disse: Santa Mãe! Segurei a respiração… é indescritível! A paisagem, o verde, os verdes, a vida que corre pela ilha… o mar… a vida.
A vida, essa? É das virtudes mais irónicas que conheço… sempre que dá algo, tira uns quantos…Bem, enquanto esta malfadada não me tira o meu “Bom Sucesso”, continuo no meu humilde testemunho de missão. (ah! Grande mentira… pois só pretendo fazer inveja, pois esta experiência tem sido divinal… fazer inveja, inveja… Ena! Ché)
A semana tem sido a correr, pois o tempo escasseia, os projectos são muitos… e os miúdos, aplicam-se, meus amigos, eles já pintam bem, eu vou repetir… já pintam! Já fizeram plasticina, anjos… e variados desenhos de pintura, actividades motoras… e, agora a melhor parte: cantam! Não sei como. Mas cantam! Tenho trabalhado horas extras, para ter tudo pronto, para a festa de natal e para a exposição, que não estarei presente. No dia da minha partida será a festa. A exposição de trabalhos…. A actuação deles… os trabalhos… como têm progredido… e como têm embarcado nas minhas loucuras… coitados. Coitados, não! Sem opção!
Bem, já fizemos anjos (eles cortaram todos os pedaços, corpo, cabeça e asas – tinha de haver asas!) e eu colei, decorei e inventei. Esta falta de materiais, leva a que tenha de andar no lixo… e depois, é engraçado, que as pessoas riem-se de eu pedir para guardar os pacotes de leite, as latas, garrafas, rolos de papel higiénico… aparas de lápis. E, invento. O projecto inicial, nada tinha a ver… mas fez-se anjos para os meus diabretes.
Agora, bordo… é verdade, aprendi (muito mal!! Mas muito mal mesmo) a bordar. Deu-me na triste ideia, bordar o nome deles num gato… bordar os olhos, os bigodes, a boca, as orelhas, o nariz…. Bem… Santa Mãe!! O que não me rio, a bordar… a Irmã Marisa tem sido uma ajuda imprescindível… faltam tantos…. Bordados!! Por Amor da Santa! Pois eles escrevem a caneta, e com erros, os seus nomes estranhos nas batas (Euridicia! Até hoje não consigo pronunciar correctamente… mas ela sabe que é para ela quando digo Euridi… euri…)
Agora, estamos nos postais de natal… e falta… falta… ah! Não digo… mas será algo. Bem, Que a Santa Mãe esteja comigo! É cada ideia… A vida corre, os diabretes voam directamente aos meus calções brancos… e a minha cinta… e, no domingo, amigos pobre de mim, não fui à praia.
Fui, festejar o Dia Mundial da Juventude Católica, na Roça Agostinho Neto…. Por Amor da Santa… que dia…. Começou cedíssimo. Às 6h30, já estava pronta e á espera, 220 pessoas foram em hiaces (carrinhas de nove lugares de transporte publico), camionetas, camiões, motas, o Land Cruise (para transporte das Irmãs e seu séquito). Tanta animação, eucaristia ao ar livre presidida pelo Sr. Bispo de São Tomé, Manuel António (original de Lamego), animação à tarde, sol, chuva… bem, e eu louca, completamente, provo tubarão!
O resultado… é visível… chego a casa, não tenho luz nem água, durmo completamente imunda… às 19h… mas acordo às 5h da manhã, tomo banho, mudo a cama (lógico!), tomo o pequeno almoço, vou para a escola à 7h… e às 7h30 já estou na cama, por Amor da Santa… estive tão mal… que dormi seguido até ao dia seguinte.
Na terça levantei-me, e decidi sair de casa, estava tão “bem” que fui fazer o despiste de paludismo (bem, até a doença foge de mim!)… quarta, tenta-se recuperar… e continuar. Todos cismam que devia estar na cama, a descansar… mas a descansar??? Com tão pouco tempo… e tanto para fazer? Não! Os miúdos diabretes só dizem: “ché, a Rafaêlha está doente, boca calada!”… fazem mais barulho a mandar calar… mas conta a intenção! Pelo menos, sabem estar calados… pena só agora ter descoberto como os manter calados… agora! É impressionante… como do nada, eles fazem festa. De nada, eles dão valor. Com o nada… dão tudo. A vida… essa, foge de mim… e dá… e tira… e eu, recebo e guardo. Espero… esperançada.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A 30 DIAS DAS MINHA PARTIDA PARA PORTUGAL

Por Rafaela Gonçalves, na Terça-feira, 
16 de Novembro de 2010 às 20:10

Um dia destes, tomava banho e pensava: “Devo estar doida!”, claro que cheguei à conclusão, que SOU doida… mas feliz!! Bem, este pensamento não vem por acaso... explicando: a época das chuvas começou, e o pensamento de qualquer pessoa seria: água não faltará mais. Engano puro, pois não há água, ninguém tem água. A explicação, lógica, com as chuvas o lixo das montanhas entra na canalização e entope os canos. Logo não há água. Na noite anterior havia tomado banho de gato, porque não tínhamos quase água nenhuma, naquele dia tomei um banhozito melhor… mas… mas, por Amor da Santa, tomei banho com pouquíssima água, dentro de uma bacia, para poder usar depois a água do meu mini banho na sanita. Pensava eu, enquanto tomava um duchezito, quando alguma vez me imaginei passar por isto, eu?? Logo eu? Por Amor da Santa, tomar banho de “caneco”, com poupança poupada, aproveitando a água do meu banho para a casa de banho… Santa Mãe.
Acabei o meu banho, e ri-me, porque sentia-me fresca e lavada. Cheirosa. E pensava no quanto seria doida por me sentir bem assim, lavada, mas com esforço (pois é preciso trazer agua para dentro de casa e calcular se dá para tomarmos banho). No “serão comunitário” rimo-nos… e partilhamos a nossa experiência de pobreza… e rimo-nos… era a ultima noite de duas jovens, que chegaram aquando eu, para fazer um tese de mestrado aqui na Missão das Neves. Mais uma partida, não duas (pois as postulantes regressaram a Angola e também… bem… mais três despedidas marcantes), e mais uma vez relembro o dia que cheguei. O medo e fascínio que senti… Quanto à minha partida, falta um mês. Começam a falar na minha partida, até parece que estão com pressa de me mandar embora! Com jeito, falam na minha presença e de como estão habituados à mesma… é engraçado. Todos os santos dias, novas aprendizagens, novas experiências, novos conhecimentos, novos carinhos, as mesmas pessoas, a mesma rotina… nova consciência, novo espírito….
Na minha rotina já estabelecida, vou até à escola Primária Mãe Clara, às 7h00, para receber as crianças e, elas uma a uma, cumprimentam-me, dizendo “Bom dia, Senhôrra Rafaêlha” e agarram a minha mão com um sorriso. Depois faço a actividade de uma hora e meia, e costumo chegar aquando o intervalo deles, e um e outro, depois é contagioso, vem e olha para mim e agarrasse à minha cintura e olham para mim… nada dizem, nada pedem… bem… Por Amor da Santa… Estão amansados, meigos, “educadinhos” dentro da realidade deles…. Como é de calcular, o fim de semana é triste… bem no Sábado acompanhei, devido às minhas capacidades ”condutoras”, o grupo Novo Horizonte (grupo de senhoras que viviam ou vivem “amigadas” e se preparam para o casamento) a um retiro na Roça Monte Forte. Santa Mãe. Houve almoço partilhado, e eu, como fui apanhada de surpresa no final da missa das oito horas, como tal, não tinha nada. Conduzi (pelo meio dos montes, lama e pedras!), participei no retiro (apesar de não estar para casar, nem estar “amigada”) e comi… por amor da Santa… as dez senhoras, todas elas me deram um prato da sua comida… tanta comida e boa! Bem, santomense é pobre, mas bom cozinheiro. Cozinham bem… e, eu como… e depois … ora estou, o que aqui chamam: massa bruta!! Vim a tempo de fazer catequese, e tive… ora bem… tantas crianças… mas tantas… eles têm imensos grupos de catequese… mas todos os sábados novas crianças aparecem… Domingo… Santa Mãe… é horrível… Eucaristia (que me fascina… tantas pessoas, crianças, tanta música, tanto respeito e silêncio), catequese com jovens, almoço… e este domingo de tarde… praia! Cada vez está melhor… como dizia às minhas companheiras de praia: “Vou sentir saudades disto, só disto!!”
  
A noite ao fim de semana é engraçada, na rua principal, há, não sei como chamar, mas estabelecimentos tipo bar/esplanada muito rudimentares, pessoas na rua a conversarem, musica das casas… mas às 22h… tudo recolhe… é engraçado o movimento! A semana recomeça… e os meus meninos-diabretes… também... são tão amorosos… e, “destrambelhados” e “trambolhos”… mas catitos! Sempre me achei uma pessoa pouco exigente e sem manias (comparativamente com os outros, nunca me achei perfeita, tenho os meus vícios e manias!), mas só a experiência em Lembá, me fez ver o tempo que perdi com ninharias… por Amor da Santa! Não estou em “Africa-Africa”, a Ilha de São Tomé parece uma aldeia pobre, muito pobre, com falhas de energia eléctrica e água… gente pobre e humilde sem conhecimento do que é a vida fora da ilha que tem um atraso de 50 anos. Não me falta nada, mas esta gente tem tão pouco, mas tão pouco… só para imaginares, há crianças que trazem o caderno escolar (um bloco de publicidade!) dentro de um saco plástico.
Não trazem lanche, é a Congregação que dá todos os dias a estas crianças um pão e leite, é engraçadérrimo, uma caneca colorida com leite e, eles molharem o pão no leite, todos sentados… bem… nota-se que é o pequeno almoço, e porventura o almoço… Santa mãe, tanta poupança poupada, tanta humildade, tanto despojamento, falta agora saber se retomarei todos esses vícios e manias, assim que regresse à civilização. A cerca de 30 dias da minha partida… do meu regresso… espero ser capaz de partir deixando Bom Sucesso (onde resido) em Neves. O distrito de Lembá, lembrar-me-à sempre um oásis, onde a água jorra (não canalizada!) matando a sede aos sequiosos da paixão.
 
A minha vivência em São Tomé, é única e radical. Marcante e pessoal. A minha partida para São Tomé foi o meu regresso a mim, ao meu “eu”… a minha partida de São Tomé… o meu regresso... a um novo “eu” sem deixar de ser EU (em Cristo)!

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A VIDA EM S. TOMÉ

A vida é realmente engraçada….Os hábitos que tinha por certos, já não o são. O facto de deitar-me tardíssimo em Portugal (cerca das 24h – 01h – ou mais tarde) e levantar-me o que achava cedíssimo (7h30!)... fazer as minhas refeições a horas comuns, tomar o meu banho em horários determinados… ir de carro para fazer menos de 1km… sair quase todas as noites… passar horas na Internet, não conseguir estar sem telemóvel…
Agora?? Agora… Tudo é… algo que devia achar loucura, (mas para mim será normal!) ter fome às 11h30 e, oferecerem-me “rancho” (arroz com feijão vermelho e pedaços de peixe andala – o peixe-carne) e, eu simplesmente comer, fazer quase 5km ou mais a pé por dia sem dar por isso, não ter energia eléctrica, não ter água canalizada, não ter televisão… não saber noticias nenhumas, não ter doces ou café expresso, não ter… bem não ter… tomar banho e não me besuntar de creme hidratante (e ter um pele suave! Estraanho! Entrava em pânico quando não colocava cremes no corpo!)… lavar os dentes com meio copo de água… mas não entendo, pois não cheiro mal! Acho eu… pelo menos ninguém se queixou, “ainda” O que não me habituo é ao banho… água fria… grrrrr!! Traz-me duas lembranças muito pessoais… mas que sempre me fazem rir aquando do banho. Vantagens: estou tonificada fisicamente e psicologicamente. No meio disto tudo tenho tempo para estar e encontrar. Faço o que mais gosto e sem sacrifício. Por Amor da Santa… é estranho. Falta (quase) tudo e sinto-me feliz. Completa! Não estou no pior de África… mas na Europa, em Portugal… isto é considerado NADA!!
 
Acabei de ler um livro engraçado, pois não há Internet nem televisão, e ler, bem já vão seis livros… vou sentir falta deste tempo… voltando ao livro: “Tinha Rosto e Palavras de Homem” de Fernando Armellini e Guiseppe Moretti, como é de calcular fala de Jesus… e relata como Ele era Homem. Neste livro entendi que, em São Tomé, aprendi o chamado: caminhar! “Caminhar não é apenas um acto mecânico; é opção, é procura e é orientação. Caminhar não é simplesmente dar um passo e depois outro; é ir em direcção a alguém ou a alguma coisa. É entrar na realidade que
nos rodeia, é abeirar-se dela e conhecê-la. Saber por onde ir, escolher por onde andar e onde parar é sabedoria. Um dos defeitos do homem moderno é que não caminha, desloca-se. Transporta-se em meios velocíssimos (carro, comboio e avião) que lhe permitem percorrer longas distâncias em tempos muito breves, mas que lhe tiram a oportunidade de encontrar pessoas e de ver coisas. A sua pressa fá-lo cruzar com muitíssima gente, mas impede-o de se aperceber dos sentimentos que os seus olhares reflectem; fá-lo ver florestas enormíssimas, mas não lhe permite ver o esplendor de cada árvore nem a vida que se esconde nos seus ramos.” Aqui, parei! Simplesmente, parei. E, aprendo. Os santomenses ficam a olhar para mim com um ar de quem não entende nada, quando acho fascinante o céu, porque tem imensas estrelas, porque acho brutal o tamanho das árvores… gigantes… bem… começo a olhar com olhos de ver.
Não só estas coisas visíveis aos olhos são realçadas em mim, mas tantas coisas que eu pensava conhecer… e estava tão enganada. Como era pequena, pequeníssima e não sabia! Bem no Sábado fiquei felicíssima pois consegui que o Land Cruise chegasse aos 90Km/h. Ui. Ui!! Essa é a velocidade que atravesso a Rua do Jardim… Bem… Por amor da Santa… a velocidade média em São Tomé deve ser 30km/h… por isso… já sentia falta de ver as árvores passarem com mais velocidade por mim! A vida começa a parecer completamente normal, mas as pequenas coisas começam a ser significativas… o meus “pimpolhos” já me obedecem… conseguimos trabalhar. Começo a ver progressos… ah! A minha baba caiu… não imaginas o quanto isto me alegra, cada vez que saio da sala de aulas sem ter precisado gritar… o facto de eles chegarem à escola e simplesmente dizerem: “Bom dia, Rafaêlha”, claro que dando a sua mão para um cumprimento… já dizerem “obrigado” e “posso”, sem eu dizer que o têm de dizer. Os miúdos (graúdos) da catequese, abordarem-me na rua para justificar porque não foram à missa, ou a isto ou aquilo, ou simplesmente falarem-me da catequese e da experiência que os marcou, tentando relacionar os acontecimentos da vida deles com as “migalhas” de ensinamentos catequéticos que tento semear. O fim de semana é sempre chato como tudo… este, como choveu (Ah! Já chove todos os dias… é a época das chuvas… e como chove… o melhor calçado é sandálias ou havaianas, a melhor roupa: calções! Brutal! Que calor!) não fomos à praia fomos visitar Roças: Agostinho Neto, Ribeira Funda e Graciosa. As Roças eram tipo fazendas onde existiam hospital, escola, igreja, fabrica… tudo… construções coloniais lindas, mas abandonadas e danificadas. Bem, “inocentemente” os santomenses não souberam aproveitar a divisão das Roças. É um mundo lindo, tipo de conto de fadas… mas com uma marca dolorosa para quem olha de fora.
Eles são felizes. O passeio estreita laços… os passeios… criam amizades e conhecimentos. Á duas semanas chegaram três postulantes que estão em Formação em Angola: Ricarnilda e Sara, Guineenses e Neide, Santomense. Minha Santa Mãe… que pessoas… que laços… que amizade! Doces. Uma experiência engraçada, pois fui eu que as fui buscar ao aeroporto, e trouxe-as para Neves, fui com elas à praia, passeei na cidade, passeamos este domingo… e já se fazem planos… elas irão começar o noviciado em Dezembro, e ficaram por Angola cerca de 3 anos. Comparamos vidas e experiências. Sonhos. Ena. A vida brinca com o tempo. E, os dois… gozam-me! Bem… nada de especial… mas gestos pequenos de delicadeza, de carinho, respeito e gratidão são demonstrados segundo a segundo. Não faço nada à espera de recompensa (nem que seja um sorriso!), mas é muito agradável ver que eles dão valor à minha presença… Há tanto a fazer, e tanta gente a desejar ajuda. Lembá não é um paraíso de gente pobre que quer ser ajudada. Há muitos que não querem ser ajudados, e nem permitem aproximação, afastando-nos… mas muito há a fazer. O tempo?? Esse, tem vindo a “dar-me uma grande tanga”! Gostava (precisava) de mais tempo… nunca nada ficará totalmente completo… mas gostava de ter mais tempo! Não vim cá dar nada, nem deixar marcada a minha passagem… mas eu sim… levo imensas dádivas e muitas marcas. Eu aprendi a estar, ser e amar. Conhecimentos que não se ensinam, mas se vivem… Não regressarei a Portugal “completamente completa”, mas regressarei a saber que tenho muito a aprender. Regressarei fortalecida. Regressarei…

Por Rafaela Gonçalves, Quarta-feira, 10 de Novembro de 2010 às 23:51