"Um braçado de gravetos, um copo de água, um punhado de farinha, um tudo nada de azeite. Juntando as pontas destes fios soltos, a viúva de Sarepta prepara-se para fazer uma última refeição de despedida da vida juntamente com o seu filho único. É nesta terra quase a terminar, onde já mal se tem pé, nesta vida quase a expirar, que surge Elias, o homem de Deus, conduzido por Deus, que atira à pobre mulher mais um fio de voz e de esperança a que se agarrar: Deus. Não é a quantidade que importa; o que importa é a totalidade. Pelo fio de voz e de esperança de Elias, Deus não reclama alguma coisa; reclama tudo: o coração todo, a alma toda, a confiança toda, as forças todas! E nem a farinha se esgota na amassadeira, nem o fio de azeite deixa de cair da almotolia! Extraordinária lição para a pobre viúva de Sarepta (Primeiro Livro dos Reis 17,10-16) e para nós, que atravessamos a secura da paisagem desta terra de Novembro." (...)
Uma nuvenzinha,
Que o criado de Elias avista lá ao longe,
Acende de esperança o horizonte,
Como uma cidade iluminada sobre um monte,
Uma avezinha que se dessedenta numa fonte,
Uma velhinha que recolhe um braçado de gravetos,
Para acender o lume
E cozer apenas um pãozinho
Para comer com o seu filho
Antes de rezar e de morrer.
Elias anda ao sabor de Deus,
Como um moinho ao vento,
Como um pássaro ao relento,
Como a voz de um fino silêncio,
A amadurar no coração de um grão de trigo
Ou de um amigo.
Tudo é tão frágil e tão belo,
Belo porque frágil
E ágil.
Anda tanto Deus à nossa volta,
Que não precisamos de guarda
Nem de escolta.
Concede-nos hoje, Senhor,
Sentir a tua voz bater em nós,
E o teu amor sempre ao redor,
Sempre ao redor,
Como Tu achares melhor.
D. António Couto
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